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“Calatonia” – Maria Raymunda Ribeiro

Tocar os dedos dos pés,

Um a um, fazendo polaridade

Com os seus dedos das mãos.

Cada um tem sua função.

Eles juntos compõem uma orquestra.

Terá a sua nota, tendo a sua repercussão.

Os órgãos internos vão se rearranjar.

Os líquidos do seu corpo vão distribuir-se

Harmoniosamente!

Como deveriam sempre viver.

Na sola dos pés,

Dois toques apenas precisos.

Abrangendo o dorso,

Abrangendo o corpo todo.

Pegando o ponto Central,

O cóccix e a coluna.

No calcanhar!

Que sensação boa de ser carregado.

Conduzido num colo; do outro.

Aconchego gostoso, com afeto.

Para finalmente espalhar

Todos os estímulos juntos,

Para o seu corpo todo

Até o “cocoruto”da cabeça,

Chacra coronário,

Pode chegar!

Volta ininterruptamente,

Por fios invisíveis, dispersos no seu corpo.

Há correspondência correta, necessária

Para o seu “bem estar”!

Calatonia é

“Distribuição”

“Relaxação”

“Alimentação”

“Deixar ir”

“Abrir uma porta”

“Desatar as amarras de um odre”

“Perdoar os Pais”e muito mais…

– Estar no mundo com seu Ser

Inteiro – Individual – Único.

Nem que seja só por alguns minutos!

– Amplia seu mundo interno e

Abre a recepção do simbolismo das representações corporais.

Podemos, além dos pés,

Imprimi-la com toques nos dedos das mãos

Ou mesmo na cabeça.

É só você escolher.

Paciente!

Calatonia – do verbo KHALAÓ – Grego

“Integração Fisio-Psíquica e a Dança-Laban” – Cilô Lacava


O corpo e sua Arte do Movimento constituem o mais precioso instrumento para explorarmos nossa capacidade criativa e nos conscientizarmo das características de nosso processo pessoal de criação.

Utilizamos os estudos de Rudolf Von Laban para estudo e análise do movimento, a OBSERVAÇÃO ATENTA, e a busca de uma disciplina pessoal significativa, no grupo.

Consideramos intencionalmente, todas as possibilidades dos TOQUES SUTIS, no trabalho da dança e todas as variações das Qualidades/Esforços de movimento.

Dançamos nossa Dança Pessoal através da Arte da Improvisação de Movimentos. Uma dança da liberdade consciente e da alegria, para o dançarino e observador atentos.

Celebramos a possibilidade de nos reunirmos em grupo para a criação artística.

Dançamos, por vezes, a Dança que nos Dança e assim “dançando Tocamos a Alma do mundo”. (Eugênia)

“A Calatonia e o arquétipo da Madona Negra” – Lucy Penna

 

Lucy Penna 
Núcleo Junguiano do Cerrado 
nucleojunguianodocerrado@gmail.com 
Tel 62 – 2374 2979 
Apresentado  no Encontro de Cinesiologia – 2009)

ABSTRACT
O arquétipo da Madona Negra permanece vivo e atuante no terceiro milênio. Seu significado  é forte em inúmeras manifestações famosas: Pele, Czestochowa, Einsiedeln, Guadalupe, Monteserrat, Maria Madalena e Aparecida, exemplos da força desse arquétipo na transição do processo de individuação coletivo. Este ensaio contribui para vincular os conteúdos constelados pela Madona Negra de Aparecida  e o método calatônico de Pethö Sandor .  Proponho que a peculiar interação entre o corpo físico e o corpo sutil que caracteriza a Calatonia faz parte da manifestação do arquétipo da Madona Negra de Aparecida.

 

Palavras-Chave
MADONA NEGRA – SELF CULTURAL – MITOS BRASILEIROS – NOSSA SENHORA APARECIDA – CALATONIA – TOQUES SUTIS.

O arquétipo da Madona Negra continua instigando a nossa compreensão pela complexidade do seu conteúdo e pela continuidade de suas manifestações desde o mundo antigo.  Pele do Havai é uma das manifestações mais populares deste arquétipo que vence os milênios, derrota a cultura racionalista americana e permanece uma expressão viva da Madona Negra. No contexto cristão atual temos a polonesa  Nossa Senhora de Czestochowa, a espanhola Virgem de Montserrat, a Virgem Negra de Einsiedeln, Suiça, a mexicana Nossa Senhora de Guadalupe. Sara, a protetora dos ciganos e Maria Madalena, erguem-se como frutos de um sincretismo onde os mistérios do ocultismo se misturam com a fé cristã, no sul da França. O Brasil é pródigo de imagens da Madona Negra: Nossa Senhora da Conceição Aparecida e Nossa Senhora de Nazaré, e também Yemanjá e Oxum são as representantes mais populares do arquétipo.
As Madonas Negras constelam a consciência da interconexão com todos os seres humanos e não humanos. Inspiram o sentimento de pertencer ao todo universal que libera a compaixão para com o mundo. Elas unem o corpo e a mente,  comunicam o humano e o divino, apaziguam o conflito entre matéria e espírito. É um traço forte neste arquétipo  em seu aspecto positivo tornar a profissão espiritualizada, a vida social um ato de fé, a cidadania uma atitude ética normal. Percebo uma relação intrínseca da Calatonia com o arquétipo da madona Negra na maneira como o corpo dança com a mente e o espírito se amiga com a matéria.
A Calatonia torna palpável o humano e o divino no corpo. Ela toca o sensível e o sensual, libera a sensibilidade e abre o imaginário. Os toques calatônicos são uma manifestação de superação dos opostos terapeuta – paciente. Durante o processo dos toques ambos estão se deslocando nos espaços internos, onde as vozes dos diferentes níveis de consciência  antes banidas, esquecidas ou reprimidas, podem ser ouvidas. E atendidas.

Abrir para o Sagrado Feminino

Uma moça casada de 33 anos, psicóloga, sonhou que recebia a notícia da morte de sua mãe. O tema da doença ou perda da mãe se repete desde alguns meses, abordando o eixo simbólico do Sagrado feminino sob vários ângulos. Já elaboramos o seu medo de perder a mãe e também a necessidade de diferenciar-se do modelo feminino materno e familiar. Na última sessão, fizemos toques na cabeça e no rosto. Ela entrou em profundo estado de introspecção. Então, pedi que  voltasse ao sonho e materializasse a causa da morte de sua mãe. “Descuido com ela mesma”, respondeu. Minha paciente é uma pessoa inteligente, que lê, faz cursos, trabalha como psicóloga e, aparentemente, cuida bem de si mesma. Qual o aspecto que está descuidado? Temos duas possíveis interpretações: ela ainda não quis ter filhos, embora seja casada há sete anos. E tem sido displicente com sua vida espiritual. Esses dois conteúdos estão interligados, pois ela comanda as escolhas pela razão que lhe diz “ainda não chegou a hora de se mãe”. Para ser mãe ela precisa aproximar-se do marido, criar um lar, pois ainda mora com os seus pais, e aceitar a tarefa da maternidade. Completando agora 38 anos, ela tem de ampliar a visão do seu poder feminino. A força do arquétipo é o germe de uma doação viva, sensível, amorosa que se tornaria a base de uma atitude espiritualizada diante dos processos naturais da vida feminina. Mas será que é o seu caminho? A Calatonia está abrindo sua visão para um corpo sagrado, ao mesmo tempo em que esclarece seu caminho de mulher. Durante os poucos minutos da Calatonia ela consegue ir além do confronto entre o medo de ser ela mesma plenamente e o medo de sair da proteção da mãe ( dos pais). Aos poucos esses instantes de luz interior poderão ir espalhando mais auto-confiança.
Pelo fato de tocarmos nos pacientes, nós induzimos uma aproximação entre o físico e o espiritual mais tangível do que em outros métodos. Terapeuta e  paciente sentem a intensidade e a leveza da presença única do ser integral. A Calatonia permite a proximidade que está ausente na psicanálise e irrompe no proibido pelas normas técnicas ainda vigentes. Nosso trabalho inaugura uma aproximação de corpos carentes  da água da vida. A Calatonia promove uma freqüência vibratória onde as consciências navegam na direção do Self. Cria um campo mórfico onde a telepatia é possível. Esse é o nível de atuação do arquétipo da Madona Negra em todas as épocas.

 Fragmentos integrados do meu ser

No mito egípcio, Isis usou rezas e poções mágicas para restaurar o corpo despedaçado de seu marido, Osíris. Copulou com Osíris ressuscitado e gerou Hórus, o Sol Novo e Jovem. Símbolo da renovação cultural do Egito, Hórus reinou para iluminar e ensinar, até mesmo sua velha mãe, e até hoje ainda pode significar a luz da consciência superior. Talvez a mais antiga manifestação reconhecida da Madona Negra, os mistérios de Ísis e Osíris foram cultuados por cerca de 5 mil anos. Trazido do Egito para o continente europeu, seu culto perdurou sob formas veladas. A Catedral de Notre Dame, no centro de Paris, ergue-se hoje sobre um antiqüíssimo templo de Ísis. Com a mudança das crenças religiosas oficiais, Isis transformou-se em Santa Genoveva, a padroeira de Paris, a Cidade-Luz.
Quem somos nós, se não pajés e pajéias a juntar os fragmentos das pessoas (e os nossos) com os toques suaves aprendidos de Sandor? Nosso objetivo é restaurar o ser integral. Queremos a ressurreição gloriosa, com alegria de viver e mesa farta para todos. Chega de crucifixos pendentes sobre a cama do casal. Regendo sobre o corpo e sobre a espiritualidade, a Madona Negra estimula a viver a sexualidade com alma, criando e recriando laços de amor. As conexões criadas pelos toques calatônicos  juntam os fragmentos disparatados, feios e custosos…mas totalmente nossos.
Os toques da calatonia ensinam a ser com os outros. Crianças  aprendem a trocar carinhos, como os colegas tão bem ensinam e divulgam há anos. As escolas começam programas que são verdadeiros laboratórios de toques para a juventude. Pacientes internados recebem o carinho dos toques calatônicos em abrigos e hospitais. Pesquisas, trabalhos de campo e teses argumentam sobre o efeito desses contatos tão simples, profundos e instigantes.  Cada segmento da sociedade que está sendo tocado reverbera o gesto humanizador da calatonia, irradiando o com-tato adiante com muitos outros.
Sandor iniciou uma revolução pacífica na sociedade brasileira.  A sua presença e seu modo de agir levam a crer que o arquétipo da Madona Negra o inspirou e o protegeu a vida toda. Visto de outro modo, diria que ele foi atraído pela força da Madona Negra neste território. Aqui Yemanjá, uma deusa de um rio africano, transformou-se em senhora dos mares, cultuada de norte a sul. Tornou-se uma orixá, incorporada à Nossa Senhora da Conceição, que é da concepção, portanto da fertilidade e do amor. Unindo o sagrado e o profano, as tradições indígenas também somam imagens míticas do Sagrado  Feminino que unificam o material e o espiritual. Lembremos que Sandor expandiu, divulgou e propôs seu método aqui. Para uma personalidade sensível como ele, o campo mórfico deste território seria, certamente, uma fonte de inspiradacriatividade.

 Aparecida e a Calatonia

A proposta renovadora que a Calatonia traz aos relacionamentos integra-se  aos símbolos constelados em  Nossa Senhora Aparecida, o sinal mais importante da presença do arquétipo Madona Negra na psique coletiva brasileira.  Aparecida veio  decapitada e suja das águas do rio Paraíba. Quando rezar para uma santa escurinha era crime sujeito à pena de morte, ela emergiu quase preta. Uma santa feita possivelmente por um frade, com as cores de Maria, levando o símbolo das deusas pagãs da fertilidade na lua crescente sob os pés. Jogada ou perdida no rio Paraíba, transformou-se.  Sofreu uma verdadeira alquimia nas águas lodosas do rio, perdeu as cores convencionais, emergiu como  Madona Negra trazendo abundância de peixes para saciar o corpo e o espírito das gentes. 
Aparecida é cor de canela como nosso povo. Ela expressa  a deliciosa e confusa  combinação do DNA neste chão. Aparecida também revela a profunda dualidade do nosso povo. Cabeça separada do corpo, razão se opondo ao sentimento, confusas realidades que estão na raiz da identidade nacional. Enquanto o prazer colore a sensualidade na cama e na mesa, a preguiça corrói o caráter. As questões públicas se pautam pela pragmática econômica excessiva que não chega a ser implementada. O governo é a cabeça, enquanto o povo é o corpo  da nação. Tem-se a impressão de que não é possível elevar o patamar de prosperidade para todos enquanto governo e povo  estiverem tão separados. Aparecida mostra os conflitos da alma que se forja há cinco séculos neste território. Por isto, ela  não pertence a um grupo, a uma classe social, nem a uma igreja. Aparecida é do Brasil. Tanto quanto a Calatonia é um produto brasileiro, gestado no trato com as gentes que moram aqui,  incubado no atendimento às pessoas daqui. A Calatonia é a cara da gente brasileira.
Quebrada, depois atacada e quase destruída, a imagem de Aparecida percorreu muitas etapas no caminho da integração cabeça/corpo.  Quem primeiro juntou sua cabeça e corpo foi a cabocla Silvana, mãe de João Alves que a recolheu em sua rede de pesca em 1717. O maior ataque à integridade física da imagem a destruiu em 165 pedaços, em 1978. As mãos hábeis de Maria Helena Chartuni a agiram para recompor o corpo destruído, e a presença espiritual da Madona expandiu-se ainda mais. Sempre as mãos, sempre as mulheres. Dois aspectos da saga alquímica desta Madona Negra que a ligam ao toque calatônico com as mãos. Realmente os toques calatônicos devem ser realizados sempre com amorosidade e inclusividade, que são qualidades do Princípio Feminino, e estão presentes nos homens evoluídos e nas mulheres cuidadosas.
O que nos leva àquela paciente, que finalmente percebeu o quanto estava descuidada consigo mesma.  A cabeça separada do seu corpo, da  vida instintiva pulsando dentro dela pedindo para ser mulher inteira.  Os significados que atribuímos aos contrários “cabeça – e – corpo” podem ser diferentes, mas olhar para eles e encontrar o caminho de conciliação é uma necessidade universal. Aparecida está ai mesmo, para lembrar-nos da urgência deste esforço. Ressuscitada,  inteira, ela se transformou em  símbolo do Self Cultural nacional. Sandor  captou esse Self, trabalhou com ele e por ele.
Sandor viveu e se transformou neste país, uniu seus fragmentos. Aqui ele percorreu sua individuação com serena presença, diante de nós.  Ao perceber as nossas necessidades, deixou uma maneira simples e intensa de atuar para  construir um caráter íntegro nas pessoas. A carência da verdadeira integridade grita nos olhares das crianças de rua, espanta nos atingidos pelas balas perdidas, mata de fome nos banidos da sorte. 
Uma relação mais sadia consigo mesmo, cuidando de si e dos outros, sem alarme, nem alardeando promessas vãs: esta é a herança de Sandor. Ela combina com os símbolos que vejo em Aparecida, a nossa Madona Negra da abundância. Abundância de amor, inclusão e perdão, por artes e sabedorias da Senhora Dona da Paixão. Aquela que dá o vinho e o pão, a cama e a mesa… no canto de Milton Nascimento. (*)

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(*) Louva-a-Deus – Canção de Milton Nascimento e Fernando Brant. Nascimento/Três Pontas/EMI Publishing Brazil ASCAP/UBC – 67059244

“O método calatônico em psicoterapia ” – Lucy Coelho Penna

 

Apresentado no Simpósio “Relaxamento: sua importância no contexto psicoterápico”, 36ª Reunião Anual da SBPC, São Paulo, 4-11 de julho de 1984. Publicado na Revista Ciência e Cultura (SBPC), 1984.

ABSTRACT. The Calatonia method in psychotherapy. Calatonia is a method of relaxation proposed by Sandor that makes use of soft touches applied upon the patient’s skin, in association with psychotherapy. The three Calatonia techniques are briefly described and commented emphasizing its relations with the analytical process, the psychophysiological reorganizations and the posture alterations. The Calatonia induced responses are partially due to the kinesiological factors mobilized by the soft touches as thou to the sensations, affects, images and ideas arisen by tactile stimulation. In any of these categories, the patient’s reactions to the method cannot be viewed only as psychophysiological reconditionning but foremost as an holistic existencial reavaluations.

RESUMO. A calatonia é um método de relaxação proposto por Sándor o qual utiliza toques suaves sobre o corpo do paciente, em associação com a psicologia profunda. As três técnicas componentes do método são brevemente descritas neste trabalho, e comentadas focalizando-se a sua relação com a psicoterapia, com as reorganizações psicofisiológicas e com as mudanças posturais. Partes das respostas que são induzidas pelo método calatônico parecem ser devidas ao papel dos fatores cinesiológicos que os toques suaves mobilizam, assim como às sensações, afetos, imagens e idéias que o estímulo tátil pode despertar. Em qualquer destas categorias, as respostas do paciente ao método não devem ser vistas somente como recondicionamentos psicofisiológicos, mas, e sobretudo, como recolocações existenciais amplas e profundas.

HISTÓRICO

A calatonia é um método de relaxação proposto por Sándor (7, 8), composto de três técnicas para serem utilizadas em associação com a psicologia profunda. Sándor partiu das observações realizadas em hospitais da Cruz Vermelha, antes e durante a II Grande Guerra, para elaborar o seu método, cujo desenvolvimento posterior teve a influência das suas experiências clínicas no Brasil.

A técnica básica desse método, conhecida também como calatonia, foi apresentada pela primeira vez em público por ocasião do evento que a Sociedade de Psicologia de São Paulo promoveu em 1969.

Naquela ocasião, Sándor apresentou, pela primeira vez, a técnica básica, embora ela já estivesse em uso por diversos profissionais, em São Paulo. Assim , na mesma oportunidade, Mauro (3) e De Santis (1) apresentaram as suas experiências clínicas com o uso desta técnica em psicoterapia de adultos. Mais recentemente, esta última autora também mostrou o emprego da calatonia em psicoterapia infantil (2). Na mesma linha de consideração, Penna (5) apresentou o caso de uma menina de cinco anos, cuja excessiva tensão oral a tinha levado a grave síndrome da articulação temporomandibular, recuperando-se através da calatonia integrada à psicoterapia de linha jungueana. Mais recentemente, a mesma autora propôs alguns princípios para a avaliação do contexto teórico da calatonia, em sua modalidade básica (5).

Embora as observações já publicadas representem apenas uma parcela muito pequena das experiências clínicas feitas pelos profissionais que empregam o método calatônico, atualmente há outros relatos feitos oralmente, em várias ocasiões. Durante os últimos anos o método tem sido divulgado através de cursos de especialização 1 e de grupos de estudos, realizados por Sándor ou por seus colaboradores, tanto na universidade, quanto em clínicas particulares.

OBJETIVO DO MÉTODO

Em um plano mais abrangente, esse método visa uma reavaliação existencial ampla e foi planejado para alcançá-la em integração com a psicologia profunda. Visto de modo operacional o método objetiva a regulação do tono psicomotor e procura o recondicionamento psicofisiológico do paciente, através de estímulos táteis suaves, aplicados em pontos determinados do corpo.

Os seus efeitos são observados no planejamento da postura, que é conseqüência da regulação do tono das musculaturas esquelética e visceral; assim como na soltura dos movimentos e na expansão da sensibilidade proprioceptiva. Com um melhor conhecimento do próprio corpo, o sujeito então pode reavaliar as suas expressões corporais e elaborar a linguagem dos próprios sintomas, quando os possui. Segundo Sándor (8), os conteúdos inconscientes que estão associados às desorganizações psicofisiológicas aparecem na forma de imagens, idéias, lembranças e sonhos, refletindo o momento em que vive a pessoa. Sempre que surgem, essas produções das camadas mais profundas da personalidade são acolhidas e trabalhadas no processo terapêutico, sem que se procure dirigi-Ias e nem também forçá-las em esquemas interpretativos, mas dando-lhes a dimensão profunda adequada.

Assim, a calatonia possibilita a ampliação do mundo interno e abre a recepção do simbolismo das representações corporais. As funções intelectiva e ideatória são, por este meio, também mobilizadas, do que resulta um amplo processo transformador, o qual é diretamente manifestado na melhor qualidade dos relacionamentos interpessoais.

O método é constituído, atualmente, por três técnicas. A primeira, que foi originalmente apresentada como “calatonia” e duas outras, que devem ser consideradas como desdobramentos da técnica básica: Descompressão Fracionada e Toques de Reajustamento nos Pontos de Apoio. As três técnicas possuem em comum o modo suave como empregam a estimulação tátil, além do princípio geral de utilização em um contexto psicoterapêutico. Entretanto, dentro de certos critérios éticos, a técnica básica tem sido empregada também na prática médica; em fonoaudiologia e fisioterapia, assim como em reabilitação e em terapia ocupacional (relatos pessoais). Além disso, estão sendo presentemente desenvolvidas várias experiências com essa técnica em centros comunitários (penitenciárias, creches, escolas e hospitais), cujos relatos (pessoais) indicam resultados bastante promissores.

1. Inicialmente na Universidade Católica e, depois, no Instituto Sedes, em São Paulo.

A TÉCNICA BÁSICA

A aplicação do método calatônico em sua modalidade básica (calatonia) consiste na realização de uma seqüência de nove toques suaves e monótonos, os quais são aplicados sobre a pele, nas extremidades do corpo. Pode-se escolher entre a área dos pés e calcanhares e a área das mãos e pulsos, segundo critérios terapêuticos. Preferencialmente, realizamos a calatonia sobre as extremidades distais, de acordo com as normas descritas por Sándor (7, 8).

Para a aplicação, o paciente deita-se em decúbito dorsal, com os braços bem soltos ao longo do corpo. Sugere-se que feche os olhos, podendo abri-los, se quiser; o terapeuta solicita que aceite as mudanças que poderão acontecer em seu estado geral, sem procurar interferir, além de que é muito importante que não pense em relaxar-se, apenas “deixe acontecer”. O terapeuta senta-se, então, aos pés da cama e, muito suavemente, toca os pés do paciente, mas sem massagear, nem movimentar ou pressionar, limitando-se ao contato sutil. A área de contato situa-se nas falanges distais, mais precisamente na base da unha, colocando-se o polegar no lado posterior, à altura da polpa do dedo. Cada contato é feito simultaneamente nos dois pés, de maneira tranqüila e uniforme, por aproximadamente três minutos. Para voltar do estado de relaxação, pedimos que a pessoa movimente os dedos, balance levemente a cabeça, abra os olhos e pisque, respire fundo e espreguice, antes de erguer-se.

A aplicação da calatonia em sua modalidade principal, nos pés, promove determinados efeitos que vêm sendo estudados clinicamente, mostrando que sua peculiaridade reside no alcance da estimulação tátil realizada nos pés, dentro da relação terapêutica. Esta condição enfatiza as qualidades empáticas do contato suave na pele, além dos aspectos simbólicos dos pés na imagem do corpo. Consideramos que os pés, estando na parte mais inferior do corpo humano, podem ser, analogicamente, depositários dos conteúdos básicos da personalidade, juntamente com as pernas e a pélvis.

Por outro lado, os pés têm sido tratados como símbolo da alma humana (5) e local de projeção dos conteúdos infantis (9). Tais simbolismos são amplamente difundidos e vê-se que os conteúdos projetados na extremidade inferior do corpo também estão presentes nos mitos do Saci Pererê, Curupira e Mapinguaris que, no folclore brasileiro, são entidades protetoras dos recursos naturais (6). Por outro lado, o espaço recebe conotações simbólicas decorrentes da analogia que estabelecemos entre as partes do corpo e o meio circundante. Estes elementos de natureza psíquica estão na origem dos processos perceptivos e da relação que o ser humano constitui com as principais dimensões espaciais; fato já aproveitado em diversos testes, como o Desenho da Figura Humana, o Teste da Árvore e o Rorschach. Os pés ligam o ser humano com o chão, com a terra que não somente o sustenta, mas também o atrai para baixo.

Naturalmente, cabe ao terapeuta assinalar o alcance individual ou coletivo dos conteúdos originários da estimulação calatônica dos pés ou das mãos. De qualquer modo que o faça, porém, a sua interpretação constitui um momento privilegiado dentro da sessão. Nem sempre é oportuno interpretar-se as imagens obtidas durante a relaxação, havendo casos em que a sua simples verbalização, pelo paciente, já constitui uma elaboração suficiente e também uma grande vitória sobre a resistência.

A DESCOMPRESSÃO FRACIONADA

A Descompressão Fracionada, tanto quanto o Toque de Reajustamento nos Pontos de Apoio, foi planejada para ser utilizada em seqüência à técnica básica. O seu objetivo é também desmobilizar os núcleos de tensão corporais e estimular a auto-regulação em níveis psicofisiológicos, promovendo, concomitantemente, a manifestação dos conteúdos afetivos e ideativos subjacentes. Enquanto a técnica básica estimula o sujeito a partir das suas extremidades durante quase meia hora, nesta modalidade a estimulação pode ser feita em, praticamente, todos os pontos do corpo, tendo uma duração mais curta em cada área.

O terapeuta exerce certa pressão com as palmas das mãos ou ponta dos dedos sobre os pontos escolhidos no corpo da pessoa, e vai modulando esse contato durante nove ciclos respiratórios do sujeito. Assim, a pressão é de modo que a pessoa perceba claramente o contato durante três expirações. Na quarta, inicia-se a descompressão, fracionando-a durante mais três ciclos respiratórios completos. Finalmente, ainda sem afastar as mãos completamente, o terapeuta permanece outros três ciclos em contato apenas suavemente perceptível.

Para realizar cada momento de descompressão, observa-se cuidadosamente como o paciente respira, para modulá-la quando a pessoa estiver soltando o ar. O terapeuta precisa estar ainda bastante consciente do seu próprio estado, relaxando os próprios níveis de tensão, especialmente nos braços e nas mãos.

As repercussões da Descompressão Fracionada são comumente de descontração nas regiões tocadas, com certa generalização para as áreas circunvizinhas, acompanhadas da sensação de calor. Freqüentemente, as recordações dos contatos anteriores nas mesmas áreas e o desejo de preenchimento daquelas experiências incompletas ou frustrantes, aparecem. Estas condições são, às vezes, espontaneamente projetadas sobre a figura do terapeuta, de modo que a pessoa cria determinadas expectativas, normalmente desfeitas com o decorrer do tratamento. Nunca é demais lembrar que, ao mesmo tempo em que toca, o terapeuta é tocado também, mesmo de modo aparentemente passivo. As suas reações podem ser, ao menos potencialmente, análogas às do paciente. Em parte isto se deve à qualidade da estimulação tátil que, sendo próxima e imediata, coloca as duas pessoas envolvidas como sujeitas a processos semelhantes de identificação e de projeção.

OS TOQUES DE REAJUSTAMENTO NOS PONTOS DE APOIO

Os Toques de Reajustamento nos Pontos de Apoio da postura são realizados, de modo muito suave, preferencialmente sobre as articulações do corpo, durante aproximadamente três minutos.

De acordo com a articulação escolhida, o contato é feito com um ou mais dedos, de ambas as mãos, tocando-se, simultaneamente, áreas paralelas do corpo do paciente. Assim, por exemplo, o toque nos joelhos é realizado colocando-se as pontas dos dedos de cada mão em volta da patela. O paciente está sentado, com as pernas estendidas e o terapeuta, sentado à sua frente, realiza o contato suavemente, observando as reações do sujeito.

O efeito mais evidente desse tipo de contato é soltar as articulações móveis (anfiartroses e diartroses), ocasionando um afrouxamento gradativo dos pontos de apoio posturais. Pela diminuição dos níveis de tensão na articulação estimulada, far-se-á sentir o predomínio da força da gravidade, conduzindo o corpo para uma soltura maior. Por isso temos sempre ao lado do sujeito um divã, ou mesmo boas almofadas, para que, eventualmente, ele possa deixar-se descontrair despreocupadamente.

É o estado de tensão anterior do paciente que vai determinar o reajustamento postural necessário. No entanto, sempre se pode observar uma resposta respiratória reflexa após o toque, acompanhada de descontrações em feixes de fibras, ou até mesmo em grupos musculares inteiros. Estas reações levam a uma soltura parcial do corpo no espaço, partes simétricas se reequilibram e movem-se, alinhando-se de modo mais harmonioso. Em outras ocasiões, quando o reajustamento atinge zonas musculares mais extensas, observamos um verdadeiro “derretimento” da postura, todo o corpo se solta e o paciente entra em profunda relaxação.

Nesses momentos, é comum que haja certa percepção do processo de reajustamento que teve lugar, o qual se propõe à mente do paciente através de imagens diversas, às vezes em tonalidades de luz e sombra nas áreas corporais envolvidas.

A APLICAÇÃO DO MÉTODO EM PSICOTERAPIA

Dentro de uma sessão, costuma-se, primeiramente, ouvir o paciente, receber os seus conteúdos e observações e depois realizar a calatonia ou uma das outras técnicas. Este procedimento conduz a uma peculiar aproximação dos mesmos conteúdos relatados verbalmente. Durante a relaxação a pessoa tem a oportunidade de observar-se a partir de outro ponto de vista e captar aquilo que o seu inconsciente está querendo dizer sobre o material verbalizado. Esta visão interior geralmente contribui com lembranças e com imagens sensoriais atuais, experiências do corpo vividas intensamente no passado e ligadas ao momento presente.

Muito freqüentemente, os toques nos pés estimulam o aparecimento de imagens de movimento ou alterações do equilíbrio, fazendo com que a pessoa se perceba em posições diferentes daquela em que realmente está. Aparecem, ainda, lembranças relativas aos primeiros passos e a quedas, a correr, dançar, momentos já vividos que se propõem ao sujeito, não apenas como reminiscências, mas acompanhados dos conteúdos afetivos correspondentes.

A PELE

Do ponto de vista subjetivo, a relação que constituímos com a pele a coloca como porção limítrofe do Eu: ela está na fronteira entre o mundo interno e externo, fronteira sensível, dinâmica e mutável, que se expande e se contrai de acordo com os estados psicofisiológicos. A pele nos isola, nos protege e também nos contém.

A pele é considerada, segundo os especialistas, como um órgão dos sentidos, ocupando entre estes, uma posição singular. A sua origem embrionária é a mesma do sistema nervoso 2 . Estas características a capacitam para exercer as funções de recepção e de emissão que lhe são peculiares. A pele parece emitir sinais em um grau não encontrado nos outros órgãos dos sentidos, embora alguns destes sinais somente sejam perceptíveis quando há um contato proximal entre emissor e receptor. À medida que o meio interno apresenta certas modificações, estas são conduzidas à periferia do corpo e traduzidas em alterações vasomotoras de ereção capilar e de sudorese, de mudança da condutibilidade elétrica e outras, que se constituem em autênticos sinais de comunicação. O método calatônico procura produzir estímulos predominantemente ectodermais, mas também as camadas de origem mesodérmicas são ativadas nos toques com pressão leve.

2. O sistema nervoso central e a camada superficial da pele desenvolvem-se do ectoderma, enquanto a camada interna (derme) e o sistema nervoso vegetativo têm origem no mesoderma.

No método calatônico o silêncio e a ausência de controle visual contribuem para enfatizar a pele como meio e mensagem da relação que se constitui. As mãos do terapeuta podem, então, representar um ponto de contato com o mundo exterior que permite à pessoa realizar a transição entre o estado de alerta e o relaxamento. Nesse sentido, as mãos desempenhariam um papel análogo ao dos “objetos transicionais” mencionados por Winicott (10), facilitando o mergulho introspectivo e assegurando o retomo construtivo da libido. Os objetos transicionais trazem proteção e impedem que a ansiedade, naturalmente elevada pelos conteúdos da entrada no inconsciente, desorganize a identidade egóica. As mãos do terapeuta podem ser percebidas como um objeto a meio caminho entre o objetivo e o subjetivo, sendo, então, parcialmente incorporadas durante a experiência de descontração. Com a continuidade do desenvolvimento do indivíduo, ele poderá criar relações objetais propriamente ditas, valendo-se destas vivências de soltura psicológica e física que correspondem ao estado de relaxação.

Nas ocasiões em que as reações neurovegetativas são também mobilizadas, pode-se ter choro ou uma gostosa vontade de rir, além de outras expressões fisiológicas com significados afetivos, como de alegria ou de tristeza. A “volta à terra” que este derretimento promove, aproxima o paciente de zonas inconscientes muitas vezes intocadas, produzindo experiências “arquetípicas”, onde o somático e o psicológico não estão ainda dicotomizados, nem diferenciados. A energia libidinal pode então ser conscientemente percebida, fluindo no próprio corpo, sem controle voluntário, gerando eventualmente medo e angústia, tanto quanto prazer e alegria.

A FORÇA DE GRAVIDADE

A participação da energia gravitacional nos três procedimentos mencionados é central. Quando estimulamos os pés aproveitamos terapeuticamente os muitos recursos sensoriais e motores desenvolvidos pela espécie para captar e responder à “mãe-terra”, no curso da adaptação do ser humano ao planeta. O principal estímulo recebido da terra, sempre presente desde o início da vida, é a sua força magnética, segurando o homem à sua superfície. O esqueleto, os músculos e os órgãos desenvolveram-se estrutural e funcionalmente para adaptar-se ao tipo de ambiente terrestre. Logo, o equilíbrio e a harmonia da postura estão correlacionados com a adaptação funcional ao ambiente. Neste sentido, quando a relaxação desmancha os núcleos de tensão muscular, a força de gravidade atua e atrai para baixo. Após essa “queda” planejada, será mais fácil a pessoa perceber como está organizando a sua posição no mundo e se por de pé de modo mais harmonioso.

Na Descompressão Fracionada toca-se o corpo de um modo que dificilmente ele é tocado nas relações sociais comuns. Além disto, a compressão é parte do estímulo constantemente recebido pela massa corpórea que, ao se movimentar, muda as relações de peso e altera a pressão que está sendo constantemente exercida pela gravidade terrestre sobre as diferentes áreas do corpo.

Nos toques de Reajustamento o paciente está de pé ou sentado e, o efeito da força gravitacional é ainda mais evidente. Realiza-se neste como nos outros toques, o sentido procurado pelo seu Autor quando escolheu o termo grego khalaó, para denominar o método. Este verbo, que significa literalmente “relaxação”, possui, ainda, outros sentidos, tais como: “deixar ir”, “afastar-se do estado de ira ou de violência”, “abrir uma porta”, “rasgar os véus”, “desatar as amarras de um odre”, “retirar o véu dos olhos”, “alimentar-se”, e também, “perdoar os pais”.

Sabemos que as defesas são erigidas para resistir à força natural, que tanto está fora do corpo como dentro dele. A neurose se estrutura nos músculos, especialmente nos posteriores, através dos quais se expressa simbolicamente em uma postura orgulhosa, dura; por outro lado, denuncia a enorme dificuldade em relaxar, em deixar-se ir, seguindo o fluxo da própria energia. Saber ser ativo e passivo, conforme as circunstâncias, é um estilo de vida, não somente uma questão de fisiologia ou de psicologia do movimento. Reconhecendo a importância desses aspectos, o trabalho psicoterapêutico que utiliza os toques suaves em associação com a análise do inconsciente procura integrar os níveis físico, afetivo e cognitivo da experiência humana.

Em todos os casos nos quais a reorganização seja visada, o método calatônico pode ser utilizado.

Segundo Sándor (8), desaconselha-se o seu emprego em casos de psicoses agudas, quando este método não poderia ser realizado de maneira suave, como foi planejado. Por outro lado, em afecções somáticas graves, nas síndromes psicossomáticas e em estados confusionais, aconselha-se que o terapeuta trabalhe com supervisão, além de que mantenha contatos com o médico responsável, para o eventual tratamento medicamentoso do paciente.

Durante certos tratamentos com fármacos que alteram o estado de consciência, e também com corticoesteróides, entre outros, o emprego do método precisa de especial atenção.

Em síntese, os critérios éticos e as indicações só podem ser adequadamente pensados e pesados quando o terapeuta tenha sido submetido antecipadamente, ele próprio, às intervenções que pretende realizar.

REFERÊNCIAS

(1) De Santis, M.I. 1969. A integração do animus na metanóia e no relaxamento. Bol. Psicol, São Paulo, 21: 57 e 58:

(2) De Santis, M.I. 1976. O discurso não verbal do corpo no contexto psicoterápico. Dissert Dep. Psicol. PUC, mimeog., Rio de Janeiro.

(3) Mauro, B. 1969. Anima e inconsciente racial no relaxamento e nos sonhos. Bol. Psicol, São Paulo, 21: 57 e 58.

(4) Penna, L 1976. Observações sobre um caso de psicoterapia infantil com relaxamento. Anais do II Congresso Interamericano de Psicologia. Clínica, São Paulo.

(5) Penna, L. 1979. Calatonia: a sensibilidade, os pés a imagem do próprio corpo em psicoterapia Dissert. IP-USP , mimeog., São Paulo.

(6) Penna, L. 1983. Os pés em relação com a terra. Cadernos da PUC, São Paulo, n 15.

(7) Sándor, P. 1969. Calatonia. Bol. Psicol., São Paulo, 21:57 e 58.

(8) Sándor, P. 1974. Técnicas de relaxamento, São Paulo, Vetor.

(9) Schilder, P. 1950. The image and appearance of the human body. Nova York, John Wiley & Sons.

(10) Winicott, D.W. 1958. Transitional objects and transitional phenomena Collected Papers: Through Pediatrics to Psyco-Analylisi. Londres, Tavistock Publ.

“Imagens Calatônicas” – Paulo Machado

 

Uma importante e comum observação que decorre da vivência da Calatonia corresponde às imagens, que surgem espontaneamente durante o processo.

Estas imagens, que também podem emergir em outros exercícios, num estágio intermediário entre a vigília e o sono, e que na Calatonia se acrescenta, conforme a referência de PETHÖ (1974), na “mobilização de componentes epicríticos e protopáticos” através da sucessão “sutil e monótona” de estímulos nas extremidades inferiores ou superiores, correspondem a condensações projetivas, inclusive aquelas cujos conteúdos ainda não podem ser descritos ou que não atingiram a amplitude para uma descrição simples através de palavras e que, na medida em que não forem intencionalmente provocadas, direcionadas ou reduzidas a procedimentos interpretativos, possuem o mesmo valor simbólico que as imagens oníricas.

Tais imagens, embora referindo-se a uma expressão subjetiva que emerge durante o processo de relaxação, correspondem, conforme a observação de PETHÖ, a uma realidade psíquica, e assim constituem-se de imenso valor e ajuda para a compreensão do inconsciente e no desenvolvimento da psicoterapia.

PETHÖ chama a atenção, ainda, para o dinamismo integrador das imagens calatônicas e refere-se à “finalidade inerente” das mesmas, ou seja, à extraordinária correspondência de tais imagens com a necessidade momentânea do paciente.

A observação sistemática das referidas imagens pelo psicoterapeuta, acrescentadas ao processo da análise juntamente com as correspondências corporais (recondicionamento psicofísico) que se verificam, constituem-se numa composição integrativa que, apoiados na base da Psicologia Junguiana, delimitam um novo método terapêutico e certamente constituindo-se, o referido conjunto, numa importante contribuição para o próprio desenvolvimento da psicologia profunda. 


Referências Bibliograficas:

PETHÖ SÁNDOR, Técnicas de Relaxamento. São Paulo, Vetor, 1974.

“A Calatonia Como Relacionamento” – Paulo Machado

Um importante e significativo aspecto subjacente ao método calatônico é o relacionamento que se estabelece entre o terapeuta e o paciente.

Como em todo processo terapêutico, a relação que ocorre entre ambas as partes possui duas dimensões, uma consciente e outra inconsciente. Juntamente com a percepção objetiva que tem do paciente, o terapeuta traz consigo uma imagem interior que corresponde à sua própria experiência interna como paciente e que é projetada no paciente, e ocorrendo ainda, reciprocamente, por parte do paciente, a “projeção” na pessoa do terapeuta, de sua configuração interna de “curador”. Esta configuração, embora inconsciente, certamente é decisiva na orientação de seu processo, o que provavelmente começou a ocorrer inclusive no momento de escolher a pessoa que lhe auxilia (o terapeuta).

No processo da Calatonia, observa-se ainda a vinculação corporal do terapeuta ao paciente durante todo o período de aplicação dos toques, período este em que um amplo envolvimento bi-pessoal se estabelece, produzindo um conjunto peculiar de ressonâncias psico-físicas, com a evocação de sensações e sentimentos e com o “constelar” de imagens internas.

Devido à multidimensionalidade do processo que ocorre entre os dois pólos, durante a aplicação da Calatonia, a atitude do terapeuta representa um aspecto importante no decorrer do treinamento do método proposto por Pethö Sándor. Para evitar interferências diretivas ou parciais durante a execução dos toques, recomenda-se que se evite a intenção pessoal ou a mobilização através do EGO durante este período. Pethö Sándor sugeria a evocação de um “terceiro ponto”, como um SELF projetado, para onde se direcionaria a atenção psíquica do terapeuta e de onde proviria o “comando” da relação.

Justamente por esta multidimensionalidade, a relação bipessoal que se estabelece através da Calatonia é muito rica e pode constituir-se numa experiência peculiar se realizada entre casais, ou mesmo entre amigos ou familiares, surgindo como uma “modalidade” no ato de relacionar-se, evidentemente que após o treinamento e preparo devidos. Neste caso, esta possibilidade apresenta-se também como uma alternativa ao psicoterapeuta, nos enfoques de terapias familiares ou de casais ou ainda nos locais onde os toques não são bem aceitos como procedimento na relação terapeuta – paciente.

 

“Trabalho corporal em equipes esportivas: Mais um espaço de intervenção psicológica” – Kátia Rúbio

 

(Revista “Boletim Clínico” no. 3 )

A dinâmica dos grupos esportivos tem sido um grande desafio para técnicos, atletas e profissionais que estudam o esporte. Isso porque muito já se testou, avaliou e analisou atletas individualmente, buscando-se perfis ou padrões que pudessem oferecer subsídios para se chegar a níveis ótimos de performance.

Trabalhando como psicóloga de equipes esportivas, foi possível observar que esse modelo apresentava algumas lacunas. Isso porque a representação social que o atleta tem do psicólogo é uma mistura de fantasia – alguém que cura – e de assombro – aquele que desvenda os mistérios da alma.

No contexto esportivo, esse fato ganha novas proporções. Submetido a uma rotina desgastante de treinos e jogos o atleta – este herói da modernidade – se vê envolvido por questões como a ausência de contato com a família, super exposição na mídia e a impossibilidade de admitir – para si e para o público – suas fragilidades, angústias e incertezas, posto que ainda que uma figura mítica, nosso herói contemporâneo não habita o Olimpo nem bebe da ambrosia com os deuses, mas estabelece relações afetivas e sofre com os transtornos que cerca a vida de um atleta que também é cidadão brasileiro.

Longe da máxima “o importante é competir”, o esporte de alto rendimento é, na atualidade, a instituição que movimenta as maiores somas de dinheiro do planeta, transforma o lazer em trabalho alienante e submete o corpo do atleta a um uso contínuo resultando em inúmeras contusões e na interrupção prematura de grandes talentos.

O trabalho de preparação física é quase sempre feito para um conjunto de pessoas desconsiderando as características individuais do grupo, resultando em sobrecarga para uns e em déficit para outros. Sendo depositada nas mãos de alguém, a incumbência da preparação física é, para o atleta, um trabalho desgastante, muitas vezes desprovido de sentido, assemelhando-se a um castigo. Diante disso, o atleta vai se distanciando da responsabilidade do conhecimento de seu corpo e perdendo a consciência de seus limites, passando a executar exercícios e movimentos mecanicamente, apartando-se das reações e sensações de seu próprio corpo.

Tendo alguns esportistas já se submetido aos inúmeros testes psicológicos, em outras ocasiões a possibilidade de se submeter a eles, novamente, chega a causar assombro. A razão desse comportamento reside no fato de muitos terem oferecido sua subjetividade, cognição e vivência, numa situação cercada por sigilo e garantida por um código de ética e virem essas informações ter um fim nas mãos de pessoas inadequadamente preparadas para decifrá-las, ou pior, de outras inescrupulosas que não se furtam a divulgar as fontes e o sujeito dos dados. Ou seja, ainda que apenas se inicie, o uso da psicologia no esporte já se depara com graves questões que chegam a causar resistência em alguns e até mesmo recusa de outros.

Mas esse estudo se presta a uma análise de fenômenos que ocorrem em equipes esportivas e não ao papel que o psicólogo desempenha nelas.

Quando falamos em times ou equipes esportivas não estamos nos referindo apenas a um conjunto de indivíduos que se agrupam por dimensões temporais e espaciais, mas sim ao complexo conjunto de fatos objetivos e subjetivos que torna um grupo efetivo e desejoso de alcançar suas metas, sejam elas uma atuação adequada em uma partida, a vitória ou apenas uma boa colocação em um campeonato.

Autores como Maters e Peterson (1976), Lenk (1976) e Simões (1996) têm postulado que uma equipe esportiva é mais que a soma de valores individuais e que o time com melhor performance não é composto, necessariamente, pelos melhores jogadores individuais, representando que não é a qualidade individual o de que se necessita, somente, para formar uma equipe com probabilidade de êxito. O mais importante é a capacidade de coordenação de cada um dos valores que entram em jogo, uma vez que o resultado somente se dará com a soma desses valores.

Exemplo disso são os jogos amistosos em que o time campeão da temporada joga contra a seleção dos melhores jogadores desse campeonato, escolhidos através de critério estatístico. Neste ano de 1997, o campeão da Super Liga de Vôlei Masculino – Report/Suzano – venceu por um placar incontestável (3×0) um time de 12 atletas comandado por três técnicos. Se número e colocação estatística fossem indícios de eficiência e eficácia, talvez o placar fosse outro.

É claro que outras questões estão envolvidas nessa dinâmica, ou seja, não basta apenas um atleta trabalhar contra o grupo para que os objetivos não sejam alcançados, além do que essa atitude nem sempre é uma conduta consciente. Se o grupo como um todo está identificado com a tarefa proposta, esforços no sentido oposto são identificados, isolados e trabalhados em favor da própria equipe. Isto, porém, só pode se dar quando o grupo se conhece através de suas partes – o auto conhecimento, seja do atleta ou membro da comissão técnica – e de seu todo – o conjunto em movimento, no momento da atuação.

Aquilo que acabamos de designar enquanto partes é, na verdade, cada membro do conjunto, cada indivíduo na sua totalidade. Quem sou, de onde vim e para onde vou são perguntas tão antigas – e de difícil resposta – que chegaram a servir ao deus Apolo, onde a Pítia expressava seu oráculo. Mesmo passados os séculos, e com todo o desenvolvimento tecnológico alcançado nos últimos anos, essas perguntas ainda esperam por resposta. Quem são essas pessoas que dispostas a levar vida tão regrada e árdua, que apesar de toda a exposição pública que suportam, experimentam longos períodos de solidão e que possuem corpos vigorosos mas que nem sempre encontram a representação de tal imagem em seu inconsciente?

Tentar justificar uma dessas respostas objetivamente, fosse através de questionário ou de alguma nova máquina invasiva, seria um esforço injustificado quando já dispomos de alguns recursos que têm alguns anos de vida e que recebem a denominação de projetivos.

Sabendo do papel e da importância que o corpo tem para o atleta, optamos em nos aproximar da primeira pergunta da esfinge quem sou através da apercepção da imagem corporal. Que representação tem de si alguém que corre, salta, ataca, defende e executa movimentos nem sempre percebidos mas quase sempre comandados por alguém cuja função recebe o nome de preparador físico – e não preparador corporal – e que raramente trabalha o corpo do outro com sensibilidade e percepção do conjunto envolvido?

Estava dado o primeiro passo rumo à subjetividade – de si e do outro – adentro.

A imagem corporal tal como Schilder (1980) concebeu não é apenas construída da experiência de percepções cinestésicas, mas também de todas as imagens, sensações e emoções dos momentos por que passa o corpo ao longo da existência, constituindo o substrato inconsciente das representações corporais.

Partindo desse pressuposto, levantamos a hipótese de que a construção da imagem corporal individual poderia interferir na criação e desenvolvimento de uma imagem corporal grupal, aproximando-se daquilo que Pichon-Riviére (1995) chama de formação de vínculo grupal.

É fácil entender por que parti de Schilder para falar de corporeidade, mas como e por que juntá-la a Pichon-Rivière? Porque ele afirma que o grupo é um espaço de aprendizagem, um novo espaço didático que abarca três conceitos: informação, emoção e produção e coloca a importância do corpo na compreensão dessa dinâmica, dizendo que o esquema corporal se conforma através de senso-percepções que vêm do próprio corpo como também do corpo do outro, num verdadeiro processo de construção, reconstrução, ruptura e nova construção.

Mas passemos à proposta de trabalho. Durante o ano de 1996, acompanhei uma equipe de voleibol masculina de alto rendimento, ou seja, profissionais do esporte, de um grande clube de São Paulo. É necessário caracterizá-la como tal na medida que esse dado faz toda a diferença para uma equipe amadora.

Enquanto profissionais esses atletas treinam em dois turnos diários: usualmente das 9 horas ao meio-dia e das 16 às 19 horas. Todos os dias, na parte da manhã, fazem condicionamento físico com uma carga intensa de musculação e corrida. Somado a isso estão os jogos que podem acontecer duas ou três vezes por semana, dependendo do campeonato, sendo que um deles acontecerá, com certeza, num final de semana. Quando entrei para a equipe o campeonato ainda não tinha começado e, apesar disso, alguns atletas já demonstravam sinais de fadiga.

A primeira intervenção foi uma entrevista individual que objetivou conhecer um pouco da trajetória de cada um dos atletas até o presente, no que se refere ao esporte, às motivações para estar naquele clube e não em outro e as expectativas em relação àquele grupo. Feito isso, começamos o trabalho com o grupo propriamente dito – atletas e comissão técnica.

A primeira sessão foi o primeiro contato com uma proposta que mexia com o corpo de uma forma diferente daquela que eles todos estavam acostumados a lidar. Trabalhamos respiração, movimento sutil, visualização e por fim, um desenho da figura humana e outro do grupo. Foi interessante perceber, logo de saída, que parte dos desenhos do grupo não era compatível com aquilo que havia surgido nas entrevistas individuais, ou seja, no verbal o discurso era de união, de despreocupação com a posição na equipe e de respeito. Os desenhos, porém, apontaram para uma preocupação demasiada consigo próprio dentro do grupo, a desunião caracterizada na formação de panelas e no ‘cada um por si’ e uma consciência da distância entre o falar e o fazer. Essa primeira sessão somada a alguns testes – sociometria e POMS – possibilitaram um diagnóstico individual e grupal da equipe. Cruzando esses dados, não foi preciso muito tempo para ver que o trabalho que tínhamos pela frente exigia uma mistura de Hércules e Psiquê, ou seja, a força de um e a paciência da outra, mas, e talvez mais importante, a determinação de ambos.

Passada a desconfiança inicial de uns e a euforia de outros, o trabalho de intervenção psicológica foi ganhando identidade: favoreceu a recuperação daqueles que tinham se contundido, permitiu o conhecimento de outras propostas de atuação para os momentos de maior estresse e desgaste físico e ofereceu conforto para os que tinham problemas familiares que interferiam no rendimento esportivo.

À medida que as semanas – e ao longo delas as sessões – foram passando fomos trabalhando com relaxamento, exercícios de percepção e movimentos sutis, acompanhados das sensações, imagens ou outras situações desencadeadas por esse tipo de atividade. As respostas a cada sessão eram variadas e inesperadas. Parecia que nenhum modelo teórico ou prático era 100% aplicável ao grupo, tamanha era a inconstância das respostas. Passei a encarar cada sessão como uma nova proposta que poderia trazer alguma nova resposta ou não. Apesar da inconstância, o grupo apresentou uma curva ascendente no plano pessoal e grupal, tendo sido, este momento, apreendido na aplicação de um teste sociométrico. Ali pôde-se ver que, de fato, o núcleo do grupo estava constituído, e que aqueles que, num primeiro momento, eram tidos como amigos e possíveis líderes do time depois dessas 9 sessões, através das dinâmicas e dos trabalhos corporais, já não correspondiam à confiança que o grupo lhes depositara num primeiro instante.

Não foi preciso muito tempo para perceber que um único modelo – fosse ele da psicologia ou do esporte – epistemológico ou interventivo, não seria suficiente para abarcar toda a complexa constelação de fatos que ocorrem durante um campeonato profissional. Foi necessário, sim, lançar mão de diversos recursos tanto das áreas já citadas como da sociologia, da antropologia e, por que não, da minha própria experiência enquanto atleta. Ainda que Tani (1996) diga que “não basta adotar uma abordagem, é preciso praticá-la, aperfeiçoá-la e isso se dá conduzindo-se pesquisas qualitativamente aceitáveis”, percebemos ao longo de todo o processo desenvolvido neste trabalho que a convergência das áreas de conhecimento não pode ser apenas um sonho teórico, mas tem de se realizar enquanto uma disposição concreta, tanto no sentido da melhor qualidade de vida do atleta – mesmo tendo como modelo o esporte de alto rendimento – quanto na transformação dos dados desse cotidiano em produção acadêmica.

Sabemos que ainda esse modelo não existe e, portanto, urge que criemos condições para que a demanda das equipes seja satisfeita sem que percamos, contudo, a consciência crítica de que caminhamos por uma trilha que ainda não é uma estrada, mas que serve de traçado para que, em breve, ela se concretize em bases sólidas. Qual o seu fim? Seria temeroso afirmá-lo, afinal, uns procuram a estrada sabendo onde querem chegar, outros a tomam com o intuito de descobrir pelo caminho se o final é seu objetivo ou tão somente se aquele foi um meio para uma descoberta que vai em outra direção.

Bibliografia:

Lenk, H. Top Performance Despite Internal Conflict: an Antithesis to a Functionalists Proposition. In: C. A. (ed.) Psychology of Sport. Palo Alto: Mayfield Company, 1976.

Masters, R.; Peterson, J. Group Cohesiveness as a Determinant of Success and Member Satisfaction in Team Performance. In.: C. A. Fisher (ed.) Psychology of Sport. Palo Alto: Mayfield Publishing Company, 1976.

Pichon-Rivière, H. Teoria do Vínculo. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

Shilder, P. A Imagem do Corpo. As energias constitutivas da Psique. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

Simões, A.. C. Ideologia de Liderança no Esporte: uma Visão do “Ideal Próprio” dos Técnicos e “Real Equipe” dos Atletas. São Paulo, 1996. Tese (Livre Docência), Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo.

Tani, G. Cinesiologia, Educação Física e Esportes: Ordem emanente do caos na estrutura acadêmica. Revista de Divulgação Científica do Mestrado e Doutorado em Educação Física. V.1, n.1. Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho, 1996.

“Cinesiologia Psicológica – Integração Psicofísica” – Fernando Nobre Cortese

 

Introdução:

Nossa abordagem, criada e desenvolvida pelo Dr. Petho Sandor (1916-1992), médico e psicólogo húngaro radicado no Brasil desde 1949, fundamenta-se em uma visão do ser humano como um todo integrado corpo/mente, aproximando-se do que hoje se denomina visão holística. Tenta-se ainda superar a falsa dicotomia herdada do cientificismo mecanicista que dominou a ciência e cultura ocidentais após o renascimento. Nossa postura filosoficamente encontra fundamentos na Antigüidade Clássica, e na filosofia oriental.(1) Modernamente, a Física ocidental realizou um enorme salto qualitativo na teoria do conhecimento, ao provar que a redutiva dualidade matéria/energia, ou corpo/mente, ou tempo/espaço, ou sujeito/universo é nada mais do que uma abordagem oriunda da percepção do observador e, portanto, condicionada e limitada pelos seus sentidos e sua consciência.(2)

Esses fundamentos filosóficos e epistemológicos estão presentes na obra teórica e prática de C.G.Jung. O conceito de inconsciente coletivo universaliza o homem e liberta-o das limitações dos parâmetros da consciência egóica, abrindo novas dimensões espaciais e temporais. A postura de Jung, calcada também na Fenomenologia, busca escapar dos condicionamentos mentais pré-estabelecidos, numa relação mais integral com paciente e com o conhecimento. “Tento, tanto quanto possa, não ter idéias pré-concebidas e não usar métodos já prontos e ter a idéia de que, eu mesmo, determinarei meu método; procederei da forma como sou.”(CGJ)

Podemos citar: Sócrates – “Conhece-te a ti mesmo”; Platão – “A idéia origina o ser”; Heráclito – “Tudo flui…Tudo provm do Logos”; entre os egípcios, Hermes Trimegistros – “Sob as aparências do Universo, do Tempo, do Espaço, e da Mobilidade, está sempre encoberta a Realidade Substancial: a Verdade Fundamental”- “O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima”; para os orientais “A unidade de vida e consciência é o Tao” como mostra Jung em “O segredo da Flor de Ouro” (2)

Sándor assumia a visão de homem e postura de Jung. Ao já conhecido trabalho verbal com os conteúdos psíquicos, acrescentou o trabalho corporal. Jung, embora não trabalhasse corporalmente os pacientes, utilizava com liberdade técnicas como pintura, música, extrapolando padrões fixos, “setting”, e horários.

Encontramos, porém, em Jung muitas citações que mostram como em sua observação da dinâmica psicológica, o dinamismo corporal está presente, e desafia nossa ciência atual a integrá-los. “Corpo e psique são os dois aspectos do ser vivo, isso é tudo o que sabemos. Assim prefiro afirmar que os dois agem simultaneamente, de forma milagrosa, e é melhor deixar as coisas assim, pois não podemos imaginá-las juntas. Para meu próprio uso cunhei um termo que ilustra essa existência simultânea; penso que existe um princípio particular de sincronicidade ativa no mundo, fazendo com que os fatos de certa maneira aconteçam juntos como se fossem um só, apesar de não captarmos essa integração”.(1)

Wilhem Reich, de onde provém também parâmetros para nossa abordagem, localizava o psíquico no corpóreo, sendo o toque corporal fundamental em seu trabalho de diluição das couraças musculares e de caráter e liberação da energia reprimida.

Em J.H.Schultz e seu Treinamento Autógeno, Sandor resgatou a idéia da “psicoterapia organísmica” e do “recondicionamento físio-psíquico”. Como Sandor, Schultz desenvolveu com pacientes de um hospital durante a guerra formas práticas de atuar sobre o organismo fisiopsíquico facilitando o reequilíbrio e reorganização desse organismo em um ritmo mais integrado. Enquanto Schultz utilizou estímulos sonoros verbais para conseguir essa “comutação” de estado fisiopsíquico, Sandor desenvolveu estímulos cutâneos para o mesmo fim – a Calatonia.(2)

Nosso trabalho corporal visa, em várias dimensões, reintegrar o paciente consigo mesmo. Em primeiro lugar, o trabalho corporal reconecta o homem com sua natureza mais imediata , o corpo físico, origem do eu corporal, fornecendo sensações e informações que orientam o indivíduo se eles as observa adequadamente. Nesse sentido, o trabalho corporal atua como um instrumento de profilaxia da saúde, permitindo a reorientação do cuidado consigo.

Nas formas em que atuamos – calatonia, reajustamento dos pontos de apoio, toques sutis – o trabalho proporciona uma peculiar comutação fisiopsíquica que conduz a um estado alterado de consciência, uma espécie de mudança na faixa de funcionamento do ego na vigília cotidiana, com sensações e imagens próprias desta outra faixa. Isto permite o experienciar de conteúdos distintos dos habituais. Essa vivência ajuda no descondicionamento do ego, no ultrapassar aquelas categorias de pensamentos, sentimentos e sensações padronizados e inculcados pela cultura de massa em que estamos envolvidos. Há aqui uma possibilidade de contato mais profundo e autêntico com aspectos do nosso Eu inconsciente, o centro da personalidade chamado Self por Jung.

Essa reconexão é fundamental para que o homem possa orientar seu trajeto de individuação no sentido de realizar o potencial presente no Self, no Si Mesmo, encoberto e distorcido em nossa cultura pelos condicionados e desequilibrados desejos e aspirações do ego. O ego quer realizar-se mas o Self quer realizar-SE, isto é, cumprir a destinação daquele organismo individual de participar harmoniosa e integradamente dAquele Organismo maior de que faz parte. A psique consciente do homem atual padece de uma deformação característica de nossa cultura – a inflação do ego – que exorbitando sua função original almeja controlar e determinar o processo do Ser.

Essa é uma grave ilusão – o homem não pode controlar a Natureza, física ou psíquica – nem mesmo pode compreendê-la totalmente – ele é parte dela e funciona de acordo com suas leis – como disse Jung, o inconsciente é que determina se vou conseguir pronunciar(ou escrever) a próxima palavra. Essa ilusão do homem atual tem sérias conseqüências – a Natureza física e psíquica ressente-se de sua ação unilateral e predatória, e mostra os desequilíbrios resultantes.

Essa reaproximação do paciente com sua Natureza é propiciada por vários elementos. Deitar-se, despojar-se das roupas, fechar os olhos, já configura simbólica e fisiológicamente uma alteração do ritmo de funcionamento corpóreo e psíquico. Entregar-se ao toque proposto e deixar as percepções serem vivenciadas permite a experiência dos conteúdos das camadas mais interiores. E o estímulo do toque, ao trazer descontração muscular, reequilibro das funções respiratória, circulatória e outras, complementa a criação do campo fisiopsíquico propiciador dessa experiência.

O tipo de toque que utilizamos busca essa característica não condicionada, não habitual, mais arcaica – por exemplo, toques nas plantas dos pés ou ao longo do coluna vertebral – bem como configurações grupais primitivas, que evocam o arquétipo – o círculo, as mãos dadas, a dança, a emissão de sons primordiais(A).

O campo fenomenal onde se dá o trabalho corporal é criado pela interação terapeuta/paciente, constelando o arquétipo de cura e configurando um “vaso hermético” onde a energia fisiopsíquica mobilizada operará as transmutações e transformações em ambos.

A terapia organísmica necessita de uma atitude interna do terapeuta de entrega ao processo e soltura em relação a idéias e intenções pré-concebidas. Também ele tem que dar-SE. O que ocorre é um processo que confronta, intercambia, integra e transcende os dois, terapeuta e paciente, ao constelar o terceiro ponto, aquela energia de síntese que provem do Eu inconsciente – Self.

O terapeuta move-se mais no eixo sensação/intuição, ao observar seu paciente, ouvi-lo com a ponta dos dedos e deixar que as impressões vindas do inconsciente através da função intuitiva configurem o trabalho a ser realizado. Pensamentos e sentimentos, demais condicionados socialmente, participam menos nesse momento e mais na elaboração posterior.

O corpo revela e desvela o universo interior através do toque. Atua o sistema nervoso vegetativo, ou autônomo(isto é, independente da consciência). “Há evidências singulares a respeito da participação dos diversos segmentos do sistema vegetativo na formação de imagens, e da importância do cerebelo na coordenação dos fragmentos delas. Parece que cada viscerótomo, neurótomo, miótomo, ou dermátomo condiciona certas qualidade ou certa intensidade de dinamismo psíquico que tende a se manifestar como imagem em certas etapas do trabalho aferente ou eferente.”(Sandor).

“Experimentando o emergir das imagens calatônicas, suas transformações, sobreposições ou fusões entre si, percebe-se o seu dinamismo integrador e ainda outro fato bastante peculiar: a finalidade inerente, isto é, elas surgem com aquele conteúdo que para os problemas momentâneos do paciente é o mais indicado, abrangendo as áreas necessárias e – como Jung diria – “constelam” as respectivas esferas vivenciadas, as potencialidades”. (Sandor).

Observar atentamente esse processo que ocorre através do trabalho corporal é muito importante para o desenvolvimento psicológico. Na verdade essa observação atenta de si é a função religiosa da psique (religião=relegere) na acepção de Otto que Jung incorporou para descrever a religião como um instinto psicológico e o seu não atendimento como origem dos desequilíbrios físicos e psíquicos da segunda metade da vida. Religião é observar-SE e trabalho corporal cria condições para isso.

Este texto é usado como material didático no I ano do curso de Cinesiologia do Instituto Sedes Sapientiae.

Referências:

(1) Jung, “Fundamentos da Psic. Analítica” – Vozes – parágrafo 69

(2) Sándor, “Técnicas de Relaxamento”- Vetor

Indicações Bibliográficas Básicas:

Sobre Integração Fisiopsíquica:

Sandor, Petho – “Técnicas de Relaxamento”- Vetor

Farah, Rosa – “Integração Psicofísica – Cia, Ilimitada

Delmanto, Suzana – “Toques sutis” – Summus

Sobre Psicologia Analítica:

Jung – “Fundamentos da Psicologia Analítica”- “A Natureza da Psique”- ” Práticas da Psicoterapia” – “Psicologia e Religião Oriental”- Vozes

“Memórias, Sonhos, Reflexões”- Nova Fronteira

Silveira, Nise – “Jung: Vida e Obra”- José Álvaro Ed.

Sobre Trabalho Corporal e Psicologia:

Schultz, J.H. – “Treinamento Autógeno”-

Reich, Wilhem – “A Função do orgasmo”- Martins Fontes

Gaiarsa, J. – “Reich-1980”- Agora

Mindell, A .- “O Corpo Onírico”- Brasiliense

Brennan, Bárbara – “Mãos de Luz”- Pensamento

Montagu, A .- “Tocar: o Significado Humano da Pele”- Summus

Sobre os novos paradigmas da Ciência:

Sousa, W. – “O Novo Paradigma” – Cultrix

Capra, Fritjof – “O Tao da Física” – Cultrix

Toben e Wolf – “Espaço-Tempo e Além” – Cultrix

Von Franz,M.L. – “O Homem e seus Símbolos” – Aguilar

Brennan, B.- “Mãos de Luz” – Pensamento

Sobre Anatomia e Fisiologia:

Jacob e Francone: “Anatomia e Fisiologia Humana” – Guanabara

Calais-Germain,B. – “Anatomia para o movimento” – Manole

Sobre Filosofia:

Vita, Luís W. – “Pequena História da Filosofia – Saraiva

Gaarder, J. – “O Mundo de Sofia” – Cia das Letras

“A Espiritualidade do Contato – A massagem bioenergética neonatal de Eva Reich, como promoção da saúde e como prevenção da biopatia” – Silja Wendelstadt (tradução, notas e comentários de Mariangela G. Donice*)

 

Quando Wilhelm Reich fundou a OIRC (Organ-Infant-Research-Center) em 1949, Eva Reich era médica e assistente de seu pai. O objetivo da Fundação do Centro era descobrir qualquer coisa que indicasse se a criança era saudável. Wilhelm Reich queria compreender de que modo, as crianças iniciavam e desenvolviam os seus bloqueios musculares e emocionais; seu objetivo era de prevenir uma formação precoce de uma “armadura de caráter”; muscular e emocional que poderia predispor a uma futura vida infeliz.

Para W. Reich sem dúvida a depressão crônica, a cisão esquizofrênica, e os traços de caráter esquizóide, o comportamento violento e anti social; teriam como origem a experiência traumática precoce, acontecido no inicio da vida, quando a criança para se proteger da dor, contraiu todo o seu “plasma vital”. É nesta fase da existência, que se deve atuar, no trabalho de prevenção da biopatia.

Eva Reich é uma daquelas poucas pessoas que viu seu pai trabalhar até o fim de sua vida, de um modo extremamente doce com os recém nascidos. Depois da sua morte, ela tem continuado sua obra de prevenção, e elaborou toda uma técnica da “Gentle Bionergetics”, ensinando pela América, Europa e Austrália.

O Conceito do “Contato”:

Observando no microscópio os movimentos dos organismos vivos unicelulares observou como uma ameba reagia, W. Reich tinha então descoberto uma regra que, segundo ele, regularia o processo vital de pulsação interna deste organismo unicelular e na relação entre eles. W.Reich chamou estes organismos unicelulares de “bio-sistema”.

Um “Bio-sistema” consiste de um núcleo energético pulsante no centro, o sangue, e uma membrana que o contém. A energia pulsa no interior da membrana e um campo energético se estende em torno desta. Se o ambiente é estimulante, a ameba se expande com um movimento fluído, fazendo essa energia fluir em direção à periferia e o campo de energia se alastra, se ao contrário, a estimulação por parte do ambiente é hostil, a ameba se contrai, isto faz com que sua energia flua da periferia para o centro retraindo o seu campo de energia. Se a estimulação por parte do ambiente continua e é negativa, a pulsação cessa e a ameba morre.

Para W. Reich, metaforicamente, é como se no caso de um ambiente estimulante, a ameba dissesse “sim” com o movimento de expansão em direção ao ambiente externo; enquanto que ao contrário na contração dissesse “não”.

A ameba procura um encontro agradável com outra ameba mediante um movimento ondulatório e faz “contato” entre elas, através de uma “ponte de energia”. O processo de “contato” começa quando dois campos de energia de dois bio-sistemas pulsantes se atraem, se tocam, se sobrepõe e se fundem, emanando luz e vibrando juntos.

W. Reich deduziu que o movimento da “bio-energia” no plasma da ameba é funcionalmente idêntico ao movimento do plasma de todos os seres vivos; (que é um biossistema muito mais complexo) e que a emoção (Expansão = Sim; Contração = Não), seja um movimento real energético-expressivo do plasma. Ele chamou este movimento de “linguagem expressiva do ser vivo”. W. Reich defende que este processo é funcionalmente idêntico no “Contato” entre o recém-nascido e a mãe.

A função da mãe (ou de quem lhe faz a vez) é o de promover prazer ao recém-nascido de modo que possa entrar em “contato” com ela, para poder desenvolver o nascimento do seu potencial de crescimento. Para W. Reich o prazer torna-se o processo especificamente produtivo do sistema biológico. O recém-nascido “passivo” na “fase autista” é, segundo este modelo, um bebê não adequadamente estimulado pela mãe, esta fora do mundo.

Segundo W. Reich o bebê não é passivo, mas nasce com um alto potencial de bio-energia pulsante com a qual se exprime: onde a excitação parte de seu corpo, se expandindo para entrar em contato com o ambiente-o corpo da mãe os dois bio-sistemas se expressam cada um com sua própria vibração auto-expressiva e, no “contato”, formando um único biossistema maior, no interior de qualquer campo de energia se funde, comunicando-se com movimentos de expansão em direção ao ambiente circundante.

W. Reich chama este processo de “bio social”; “bio” porque é uma comunicação emotiva a um nível de pulsação plasmático-energético, “social” porque se desenvolve entre dois seres humanos. Segundo ele a comunicação bio-social é a base de qualquer comunicação .

As pesquisas de W. Reich nos anos 50 vem hoje confirmar a recente indagação face aos recém-nascidos e suas mães. Em vídeo-registro se analisou e salientou com a câmara, tornando possível visualizar a micro-interação que não se pode observar a olho nu, onde se vê um recém – nascido visto pela primeira vez. De modo algum passivos, por sua própria iniciativa estimulam sua mãe a responder mostrando sua necessidade, não recebem e nem compreendem as mensagens. Se o seu desejo de diálogo muda, o pequeno é motivado a explorar, a brincar e a se cercar de prazer. Se sua mãe não pode escutar suas mensagens, o recém-nascido luta para ser notado, chora. No entanto se não é correspondido repetidamente, renuncia e se retira em si mesmo; não acredita mais na sua própria capacidade em estabelecer um “Contato”.

O recém-nascido, pela estimulação de suas próprias funções vitais, tem necessidade de enraizar-se no campo de energia de sua mãe. A sua vida depende disto. Quando está enraizado no “Contato” com sua mãe o recém-nascido se encontra num estado de saúde: isso é observado através do doce o calor emanado pelo corpo, é visível a cor rosada da sua pele que se evidencia também nos olhos brilhantes, enquanto os movimentos expressivos do bebê provocam o cuidado de sua mãe. Quando esta se aproxima durante a massagem no recém-nascido; Eva Reich fala de “glow and flow” (afeto e fluxo): “glow and flow” é a expressão visível do estado de saúde e bem-estar do recém-nascido “em contato” com sua mãe; é a expressão visível da liberdade da pulsação sangüínea – energética auto -expressiva, através do qual a mãe e o recém-nascido dialogam ; únicos em um único bio-sistema, quem “sabe” como se desenvolverá, se a mãe puder cooperar.

Dá prazer esse funcionamento e esta inter-relação durante o “contato-bioenergético”. Deste contato depende o desenvolvimento futuro da criança.

Eva Reich explica como o “limite” é uma função de “contato” sobre o qual se pode trabalhar bio-energéticamente e ensina como se faz com o método da “Gentle Bioenergetics”, ensina, sobretudo, como prevenir, no início da vida, os distúrbios na relação mãe-bebê, e as conseqüências para eles efeitos graves para o futuro desenvolvimento da criança.

Um diálogo especial – carinho e amor:

O “contato” é um processo rítmico, energético, de tensões -carinhosas e de descarga – relaxamento. Como W. Reich descreve em “A Função do Orgasmo”. Todas as emoções tem esse ritmo: O acalentamento, o jogo, o pranto, e coisas assim.

Durante a massagem bioenergética que ensina Eva Reich, a pele da criança tem fome de contato com o corpo da mãe e a deseja ardentemente (tensão). No contato agradável com as mãos da mãe a pele de ambos se carrega de energia, tornando rosa, quente, vibrante, e um sentido de bem estar, conforto, que invade todos os dois, a criança arde de prazer de ser amado.(carga). Depois que o pequeno se sacia, a carga flui para o centro (descarga), e, feliz e relaxado, se abandona nos braços da mãe. Você me sente, eu sinto você; nós dois nos pertencemos”. Esta é a estrutura da vida e do amor: um fluxo rítmico-energético entre dois seres vivos. O significado original da palavra religião é “pertencer”.

Em um continuum de experiências filogenética a criança estimula sua mãe a responder a sua mensagem e espera que assim seja escutado.Com um senso infinitamente sutil e refinado, comum a todas as mulheres, a mãe sente dentro de si a reposta “exata”, responde alegremente à sua volta, ao feedback da criança.

Este “contato” rítmico–energético é “Grounding and Grace”. Grace ou graça, vem do Grego charis, Amor que cura; Graça em Hebraico significa também “Útero”. O “grounding” é a conexão energética com a mãe, é a condição com a qual a criança poderá tecer o seu Ser no mundo. Graça é a encarnação do amor e da cura com a qual a mãe se dedica, do seu ser mais profundo às necessidades que não são satisfeitas da criança.

Este fenômeno do “contato”, que segundo W. Reich é “a linguagem expressiva do ser vivente”, vem descrito em termos científicos bio-energéticamente como superposição dos campos de energia de dois bio-sistemas vibrantes. Hoje as recentes pesquisas sobre recém-nascidos, feitas com a câmara de vídeo, mostra ao mundo como o fenômeno do “contato”, mãe/recém-nascido, este diálogo dança da linguagem primária do ser vivente. “Toda mãe cria e passa esta dança pessoal e única, executando e transmitindo diante da própria criança”. Neste peculiar e perfeito movimento, a seqüência improvisada da adaptação recíproca, é parte de um processo universal, comum a toda mulher.

O conceito de “identificação vegetativa” foi introduzido por Reich e indica a capacidade de sentir no próprio organismo um processo específico energético, emocional, de excitação de outra pessoa e de reconhece-lo. Eles descobriram que esse é um “contato” suficientemente profundo entre dois organismos havendo uma ressonância energética; com isso plasmática. Esta ressonância devolve a possibilidade vital no próprio corpo expressando na pessoa com a qual esta em “contato”.

As crianças se manifestam com movimentos auto-expressivos, que são reais processos biofísicos energéticos – plasmáticos, com os quais estimula sua mãe a entrar em contato com eles. Neste estado de “contato bio-energético”, o fluxo de expressão da pulsação biofísica; a criança pode se perceber no bio-sistema (corpo) da mãe , como movimentos e como sensações, podendo ser compreendidos e satisfeitos como se os pertencesse.

A capacidade da mãe de estar em “contato” com a criança atravessa a própria pulsação plasmática, percebida como emoção no próprio corpo, depende da sua capacidade de suportar, sem medo, a força, onde a excitação com aquela criança se exprime durante o nascimento, e depois. Quem teve nos braços uma criança não esquecerá mais esta sensação.

O problema daqueles que assistem o nascimento:

Para W. Reich era essencial que os seus colaboradores tivessem esta capacidade de identificação vegetativa como principal instrumento para reconhecer a necessidade da mãe e da criança: ” O sentido orgânico (=identificação vegetativa) do contato, uma função do campo de energia de ambos ,mãe e criança, sobretudo ao especialista.

O contato orgânico (bio-energético) é elemento de experiência da emoção essencial na inter-relação entre a mãe e a criança, sobretudo no período pré-natal e, nos primeiros dias e semanas de vida. A sorte futura da criança depende disso. Parece ser o “core” do desenvolvimento emocional do recém-nascido. Sabemos muito pouco sobre isto.

Os resultados de recentes observações diretas da dupla mãe – filho pressupõe que é possível analisar rapidamente, no vídeo também, o que acontece na inter-relação recém-nascido – médico (obstetra, ginecologista, pediatra, etc ).Se colocarmos agora critérios objetivos para escolher aquele médico que possam auxiliar o “bio-sistema” mãe /recém-nascido durante e depois do parto, facilitando o desenvolvimento e a sua capacidade de auto-regulação da saúde. No futuro, esta pessoa terá habilidade de “identificação vegetativa” para poder seguir as mensagens não verbais da relação mãe/recém-nascido. Esta capacidade permanece muito valorizada até hoje e não é uma coisa que se procura nos ensinamentos nas escolas de especialização e nem universidades. Hoje se sabe que pessoas fortemente encouraçadas, que tiveram suas próprias emoções reprimidas, também tiveram uma ótima preparação universitária, não se comunicando ao nível da “identificação vegetativa” com a dupla mãe – recém – nascido e possam infringir, sem querer prejudicar o plasma vital da criança.

“Não temos ainda nenhuma idéia precisa sobre aquilo que é normal no esquema interativo entre a mãe e a criança. Não se pode reduzir o saber intuitivo de uma mãe a alguma coisa a aprender/conhecer. O andamento interativo se realiza através desta correspondência intuitiva e instintiva. O apoio emocional não vem de conselhos de especialistas mas de grupos informais de mulheres que vivem igual experiência. A mãe dispõe de uma natural capacidade de identificar-se com as crianças, e de se comunicar com ela, de um único modo correto entre ambos; e as crianças confiam naturalmente em suas mães. “Os especialistas devem aprender que as mães são sempre intuitivas ,o conselho para os especialistas em nascimento é de se envolver o menos possível nos afazeres da mãe”.

Esta transformação é a principal característica, segundo Silja Wendeslstadt, de seus grupos de massagem de bebês.

Massagem – Bebê:

A massagem–bebê bioenergética oferece aos pais a possibilidade de compreender e sustentar este carinhoso (e potente) processo de liberação da pulsação bio – energética; a qual, segundo Eva Reich, é o pré-requisito da saúde auto-regulada, presente e futura.

A massagem é parte de uma antiga tradição oriental, que conhece o profundo valor da ligação entre mãe-filho Eva Reich elaborando o pensamento de seu pai, que tinha descoberto no Ocidente, sua base científica; o valor da massagem–Bebê e a aplicação sem perigo no recém-nascido e também no prematuro. As pesquisas científicas é resultado de um grupo de recém-nascidos, massageados regularmente por suas mães, apresentaram um desenvolvimento neurológico significativamente melhor do que no grupo de controle não massageado.

O efeito da massagem – bebê:

A estimulação doce da massagem de Eva Reich, que deriva da vegetoterapia, (a vegetoterapia é uma psicoterapia corporal assim chamada por W.Reich porque incide sobre sistema nervoso vegetativo), faz fluir a energia através dos blocos musculares em direção à periferia (em direção ao mundo ). A pulsação energética – plasmática através da comunicação mãe e criança se harmoniza de tal modo que muitas mulheres com profundos problemas emocionais, podem ser tratadas da depressão pós – parto recebendo uma quantidade suficiente de massagens, antes, durante e após o nascimento do bebê.

O prazer funcional que se renova com a massagem harmoniza a ação do sistema neurovegetativo simpático – parassimpático e tem um efeito positivo sobre todas as funções do organismo, promovendo saúde. Basta pensar que os animais “fazem massagem”, os recém-nascidos são lambidos, e que os pequenos que não são lambidos morrem. Os recém-nascidos não acariciados, terão sua qualidade de sobrevivência gravemente comprometida.

A massagem é particularmente importante:

– Para bebês adotados e para seus novos pais para favorecer o vínculo.

– Para os bebês nascidos de cesariana, eles não receberam a forte estimulação cutânea do nascimento pela vagina.

– Para os bebês que não puderam ser amamentados, e que com a massagem recebem nutrimento energético.

– Para os bebês que as mães trabalham: o encontro regular e o intenso fluxo de conforto que se transmite durante a massagem dá a mãe e a criança alimento energético e proximidade.

– Para os bebês prematuros, o afeto transmitido pela massagem no recém nascidos é surpreendente no seu desenvolvimento.

As últimas pesquisas psicanalíticas confirmam a importância do bom contato com a pele para a sobrevivência do Ser e as graves conseqüências de sua falta.

A pele é um órgão do sentido muito amplo do corpo e muito importante para a sobrevivência do Ser. No início os bebês percebem e conhecem o mundo através da pele: o modo com o qual virão a ser tocados, e segurados nos braços e no início uma experiência tátil.

Todo o mundo das sensações se origina da pele elaborada pela mente. As sensações transformam-se em percepção, emoções e sentimentos. A pele protege, contém, limita e simultaneamente permite o contato com o outro, acolhe uma infinidade de estímulos e respostas. Assim no nascimento a pele é o órgão que filtra o mundo externo. Por este motivo a pele tem uma importância fundamental no final do nascimento. A psicologia infantil coloca o desenvolvimento da mente e do pensamento já no primeiro ano de vida, e a pele é o órgão principal, através do qual isto acontece.

Os grupos de massagens – bebês:

A experiência que descrevo aqui refere-se a um grupo de bebês massageados que Silja, reuniu em seu consultório particular .As mulheres já haviam feito a preparação para o parto com ela anteriormente, no enfoque bioenergético suave e se conheceram desde o primeiro mês de gravidez. Depois do parto, quando o bebê já com um ano e três meses, a mãe retorna por 3 ou 4 encontros, junto com seu marido com duração de uma manhã inteira. A massagem deve durar de 10 a 20 minutos, a segunda exigência, é a resposta da criança e o seu prazer que guia os movimentos e a duração.

No início dos encontros, existe um trabalho com as mulheres de muito tempo de trocas de experiências para a troca de experiências Normalmente, o grupo é composto em média por 6 mulheres com seus bebês e quase sempre tem 1 ou 2 pais. Quando querem iniciar a massagem, as mães podem tirar a roupa de seus bebês, mas se os bebês choram podem ficar vestidos. A massagem toca, sobretudo, a “aura” dos bebês e faz efeito também em seus hábitos. As mães, nas suas sessões se deitam em colchões , se dispondo em semicírculos ,enquanto a pessoa que conduz o grupo mostra em uma boneca massageando- a, elas fazem a mesma coisa em seus filhos. O toque é suave como sopro/vento ou como diz Eva Reich, a maneira como toca é (como se fosse uma borboleta). As mãos se movem da testa em direção aos pés (para descarregar as tensões em direção as partes baixas do corpo, onde possam ser toleradas e descarregadas), a massagem deve ser feita do centro do corpo para a periferia.

Em caso de stress, a energia se encontra no centro do corpo e graças às estimulações, obrigam fluir para a periferia; através da pele, pelas mãos da mãe. Um campo de energia vibrante se cria entre as mãos e a pele se estendendo por todo o corpo. É uma experiência que produz energia para ambos, durante o qual se entrega a uma profunda comunicação.

Quando a energia começa a fluir a pele do bebê se torna rosa e pulsante de um doce calor, provocando contrações no bebê e também na mãe.

Apreendida a fácil técnica de Eva Reich e aprofundando o seu significado, se pode esquece-la: tudo se transforma então em uma dança das mães com o corpo do bebê e lentamente todo o corpo da mãe participa de um movimento rítmico, acompanhado de um canto expontâneo.

Observa-se que freqüentemente no início as mãos da mãe são pouco hábeis e cheia de temores e não agradam muito o bebê, mas rapidamente começa o verdadeiro “contato” e com um pouco de coragem, as mãos e todo o corpo da mãe se sentirão soltos. Na última sessão parece que as mãos vibram sobre o corpo do bebê como um instrumento; o bebê parece ser o instrumento e maestro ao mesmo tempo e o prazer que ele sente é visível, com as mãos da mãe em seu corpo.

Depois do bebê massageado, a mãe ainda permanece por muito tempo ligada a esta experiência com as outras mães e seus filhos. O fervor com o qual se comunicam entre eles se percebe o quão importante é: como uma “identificação vegetativa”. Muitas vezes se verifica o que chamamos de um “contato bio-energético do grupo”, é como se os campos de energia das mães e dos bebês se expandissem e tornando-se muito luminoso, quase pulsante. O quarto parece transformar-se em um macio útero de energia que envolve tudo. Se sente que é um momento de troca particularmente intenso. Os bebês não choram mas escutam atentos, maravilhados e respiram profundamente. Seus aspectos são róseos, os olhos brilham e se vê o mesmo calor visível na mãe em seus movimentos. Juntamente com o som de sua voz emite uma vibração de bem estar e de amor. Quando nestes momentos alguém entra pode sentir como se estivesse em “outro mundo”, esperando se envolver neste clima calmo e feliz .

Período Sensível:

Devemos procurar observar e aprofundar considerando o “período sensível” depois do nascimento: um momento único no qual se desenvolve uma forte ligação de reciprocidade, “privilegiada” entre recém-nascido e seus pais. Nesta fase, a família tem uma influência profunda. A antiga tradição indiana sabe bem disto; as mulheres há milênio recebem massagens diariamente e por muitas semanas depois do nascimento.

Nos grupos de preparação ao parto, propõe-se normalmente que o marido faça massagem regularmente em suas mulheres durante a gravides, e durante o esforço e no pós-parto. Esta prática deveria se tornar uma regra geral em obstetrícia, porque as mães deverão ser tocadas com doçura durante o parto, além disso, depois tocarão os recém-nascidos com mãos hábeis, e um recém-nascido tocado com doçura fará o mesmo com seus filhos.

Eva Reich não somente insiste em sublinhar em seus workshops, que a mãe depois do nascimento não deve se separar em nenhum momento do recém-nascido, mas adverte que, a separação é um “crime” contra a vida dos bebês e alerta para as graves conseqüências de um tratamento insensível das mães e bebês, antes, durante e depois do parto, porque a regra bio-energética é única , principalmente naqueles momentos. Tal ligação se desenvolve na mãe a partir de seu saber instintivo e na criança, a energia para seu crescimento. Este contato se reforça com a massagem. “A criança é acariciada, como uma pequena planta que, tem muitas possibilidades de se desenvolver, de crescer e de confiar em si mesmo na adversidade inevitável da vida”.

Neste período pouco considerado, este processo é profundamente emotivo entre o recém-nascido e a mãe. Uma criança docemente abraçada já no nascimento, aprende para sempre que é desejada e quando adulto, será terno no abraçar. Por isso é importante que o obstetra ensine a massagem-bebê no primeiro dia de vida e que os grupos de bebês massagiados iniciem o mais rápido possível após o nascimento.

A massagem da mãe – “Maternando as mães”

Os sentimentos fortes e contrastantes, de ternura e medo, que inundam o corpo da mãe durante e após o nascimento, possam ser assim potentes, para superar pouco a pouco as resistências da mãe que se opõe a isto. A compreensão, expressa-se também com um toque empático da parte de quem esta próximo, podendo ajuda-la a superar o trauma de aceitar a criança e a sensação de desordem que traz consigo, todo este potencial biológico com o qual o recém-nascido e a mãe auto-regulam no contato; deste modo poderão se desenvolver em toda a sua plasticidade e profundidade.

Para a mãe, porém fazer massagem – Bebê quando ainda está cansada por causa do parto, pode ser trabalhoso, sobretudo se as primeiras tentativas são frustrantes e ela esta insegura. Neste caso, a mãe mesmo recebendo a massagem-bebê pode fazer fluir de novo a energia, junto com um senso de bem-estar. A mãe vem tranqüilizar sobre o fato que não é possível ter sempre um bom contato com os bebês, mas o que é importante é que possamos reconhecer quando um bom contato se estabelece com as crianças, e que eles possam reconhecer quando perderam “contato” e poderem recorrer pedindo ajuda.

Na cidade na qual Eva Reich tem ensinado, instituiu-se um centro de “Pronto Socorro emocional” onde a mãe (como também os pais) com seus filhos, quando, o contato bioenergético entre eles é interrompido; recebem a necessária ajuda com “o método bioenergético suave” principalmente com a massagem bioenergética do nascimento. Deste modo, se previne ou interrompe rapidamente um “círculo vicioso” como efeito negativo grave para o desenvolvimento das crianças. É relativamente fácil reconstruir um círculo do equilíbrio natural bio-emotivo. Quando a mãe está sobrecarregada e o bebê chora, ela fica nervosa, o pequeno chora mais e ela cada vez fica mais nervosa.

Durante o estado de abertura da mãe no período sensível, parece que acontece qualquer coisa de particular quando ela recebe intenso contato rítmico e relaxante da massagem bioenergética. O prazer e o calor do contato estimulado, em todas as células da mãe, a livre pulsação bio-energética auto – expressiva. Parece que o esquema afetivo-motor, bloqueado no passado, (talvez na primeira infância? Talvez no momento do nascimento?) possam agora, na troca com o próprio recém-nascido, ser estimulado a dissolver e desenvolver-se. Como se a natureza quisesse, neste momento particular, colocar à disposição da dupla mãe-bebê, todo seu potencial de auto-cura; é por isto, que tal período se situa entre a cura e o sagrado.

A Espiritualidade do contato:

Durante a massagem bioenergética pós-parto, quando a energia entre a mãe e o bebê flui e pulsa entre ambos, em toda a sua profundidade. Eles podem viver este “glow and flow” e o amor vibrante irradia sobre o outro; estamos diante de um momento sagrado, no qual o social e o biológico se encontram.

Duas personalidades diferentes como Wilhelm Reich e Frédérick Leboyer, em épocas diferentes, observaram e viram nos recém–nascidos satisfeitos, na sua cumplicidade com o sorriso do BUDA: uma graça infinita que silenciosamente irradia, a qual esperamos por toda a vida.

Se uma fraternidade internacional entre os seres humanos jamais poderá ser fundamentada sobre uma base estável, igual base natural, para que haja um funcionamento internacional cooperativo da sociedade; poderá ser somente através do princípio do recém- nascido; A herança bio-energética que cada recém-nascido trás consigo: Um sistema energético enormemente produtivo e adaptado que dão a eles a fonte de contato com o ambiente, e o modelo segundo as próprias necessidades. A missão da base da educação deveria ser: remover cada obstáculo que se opões a esta produtividade e plasticidade dessa energia biológica naturalmente concedida.

Além disso, entramos em contato com recém-nascidos, geralmente sentimos como eles emanam qualquer coisa que pode nos restituir um mundo mais habitável: eles são capazes de um jeito surpreendentemente transmitir amor e alegria a quem os sabe escutá-los.

Talvez possamos finalmente iniciar um conhecimento, uma percepção e uma compreensão do grande potencial de energia criativa que existe dentro de nós e a proteger de nossas couraças os “BEBÊS DO FUTURO”

Algumas Reflexões: Mariangela G. Donice

“Analisar meu próprio processo, repensá-lo, revivê-lo e realimentá-lo é uma rica experiência de aprendizagem; quando consigo ligar o que li com o que vivi é que realmente aprendi alguma coisa .Quando aprendo assim, posso usa o conhecimento e aplicá-lo em novas situações.” Mariangela G. Donice

O desenvolvimento de um fluxo amoroso: emoção, afeto, sentimento, pensamento.

Sándor – (1982)

O trabalho do Dr. Sándor também se harmoniza com o pensar de Eva Reich, expresso neste poema de Rudof Steiner:

No coração tece o sentir

Na cabeça brilha o pensar

Nos membros vigora o querer

Brilhocente

Tecer vigorante

Vigor brilhante

Isto é o homem.

Na emoção se manifestam os mais intensos os impulsos do inconsciente. É o vir-à-tona de explosões mais primárias. E-moção: movimento que sai de si em direção a… Numa pessoa a emoção e o afeto são modalidades do sentir.

No afeto são mobilizadas as ondulações dos humores. A emoção com somatização é traduzida por afeto. São bem conhecidas as manifestações de rubor; nó na garganta; taquicardia e sudorese, entre tantas outras. Diferentes reações viscerais podem se apresentar, traduzindo a emoção mais primária numa história de manifestações corporais.

– O sentir, para Jung, traz a consciência englobando a emoção e o afeto.

– A consistência da emoção e do afeto aumenta com a tomada de consciência.

– O pensar pode trazer enaltecimento para o sentimento. Assim, ocorre uma manifestação integrada em diferentes níveis, desenvolvendo um fluxo amoroso.

Durante a aplicação dos toques:

É essencial, dizia o Dr. Sándor, que se deixe um espaço em aberto, não projetando expectativas sobre a outra pessoa. Ficaram inesquecíveis as suas palavras:

– “Não queiram nada…”

– “Apenas observem o que vai ocorrer…”

– “Deixe surgir no momento a idéia do toque, sem planejamento prévio, convidar a pessoa a se soltar com consciência e aceitação, é um bom caminho que vai criando as condições para que o trabalho possa se desenvolver. Também os movimentos espontâneos, que surgem durante o contato, devem ser sempre valorizados”.

O Dr. José Ângelo Gaiarsa criou certa vez uma imagem que reflete esse mesmo “Espaço sem expectativas”: “…o encontro entre o cliente e o terapeuta deve ser como dois aviões de esquadrilha voando em paralelo, onde o cliente, um pouco mais á frente, vai criando os movimentos e a direção em “Céu aberto”. O terapeuta segue acompanhando um pouco atrás e os dois formam um só movimento no “Espaço”.

Novamente Sándor falando:

– “Sempre é aconselhável o uso de técnicas mais simples no início de um contato”.

– Dr. Sándor sorria, ao dizer que as pessoas precisavam primeiro ser “amaciadas”, para só então passarem a receber os toques mais sutis, quando já tivessem desenvolvido a confiança e uma sensibilidade mais aprimorada. Assim, para o início dos trabalhos, eram indicados os giros com as grandes articulações, as seqüências dos trabalhos mais vigorosos, além de outras combinações, entre as quais os pequenos estiramentos dos braços. Sempre foi dada ênfase aos toques nos pés usando o método da “Calatonia” como sendo uma abordagem que poderia ser usada desde o primeiro contato, mesmo com quem nunca tivesse tido experiência com trabalhos corporais. A sutileza de apenas se tocar os pés afasta o esquema de “defesas”, naturalmente acionado quando a pessoa não está ainda preparada para outros toques, além do fato de ser um trabalho de plena abrangência, que chega a nível de profundidade de difícil alcance por meio de outros caminhos.

“COMO REGRA GERAL A PRESENÇA DO “BOM SENSO” FAZ PARTE DOS TRABALHOS, SEMPRE LEVANDO EM CONSIDERAÇÃO AS CONDIÇÕES FÍSICAS E PSÍQUICAS DA PESSOA NO MOMENTO.”

“AS CRIANÇAS NÃO SE DEIXAM ENGANAR POR PALAVRAS… PELO TOQUE ELAS SENTEM SE PODEM CONFIAR OU NÃO… REAGEM ÀS MÍNIMAS OSCILAÇÕES DE QUEM AS TOCA…”

“AS CRIANÇAS SÃO UM EXCELENTE TESTE PARA SABER SE O TOQUE É BOM… SE O TERAPEUTA É BOM…”

“O PERÍODO DE GRAVIDEZ TAMBÉM REQUER UMA ATENÇÃO ESPECIAL NA SELEÇÃO DOS TOQUES”.

Os toques podem afetar o equilíbrio e a organização postural

Muitos trabalhos alteram a organização e o equilíbrio postural, podendo acarretar manifestações neurovegetativas, como tontura ou enjôo. Convém sempre estar atento para amparar e auxiliar a pessoa a se deitar caso haja necessidade. A solução do corpo propicia condições para um reajuste postural mais adequado para o momento ao lado da mobilização de um rebaixamento das defesas da consciência, que facilita o vir-à-tona de conteúdos reprimidos. A soltura das tensões de uma postura fixa promove condições para expansão e crescimento. Para auxiliar a pessoa a ter condições de se soltar sem medo, convém orientá-la com antecedência e informar que não vai se machucar e será amparada.

A importância do contato com a natureza para fortalecer o corpo e a alma

O contato com a natureza para a conquista do equilíbrio tanto do corpo como da alma foi sempre enfatizado pelo Dr. Sándor. Ele falava com entusiasmo, que subir montanhas era um excelente meio para combater depressão, pessoalmente acredito que banhos de cachoeira também ajudem a combater a depressão, como também trabalhar na terra.

A importância da qualidade do toque

A segurança do gesto que se manifesta no “tocar” é essencial para transmitir ao paciente confiança e criar condições para que ele se solte durante o trabalho corporal. O desenvolvimento da sensibilidade das mãos e o aprimoramento do toque, assim como a qualidade e alcance do olhar, vão interferir diretamente no efeito dos trabalhos. O “diálogo” por meio do toque vai aumentando de sintonia após os primeiros contatos, até que se acaba estabelecendo um fluxo natural. A aproximação deve sempre começar com cautela, afastando qualquer passo invasivo e criando condições de conhecer melhor as mensagens que o corpo do paciente vai manifestando….

“ a sensibilidade das mãos e a ondulação da voz interferem no contato terapêutico.”

Influência da voz do terapeuta

O tom de voz, o ritmo e a cadência são importantes canais de comunicação, interferindo no momento em que são feitas as orientações dos toques e durante todo tempo do encontro terapêutico.

Antes do toque, o tom da voz do terapeuta já pode começar a criar um clima que favoreça os trabalhos.

Após o toque, a voz do terapeuta orientando o paciente para observar as sensações cria um fluxo de continuidade no contato. O tom e o ritmo dos sons são também “toques.” É conhecido o “poder da voz” na mobilização de sensações e de sentimentos.

A importância da observação atenta durante a aplicação dos toques

O corpo do paciente costuma apresentar alterações durante os toques, olhe, escute, sinta, respire, pense, deixe que suas mãos falem. Pode-se perceber, muitas vezes, mínimas reações vegetativas que aparecem durante ou após os toques e que podem ser trabalhadas também como sinalizações, auxiliando na compreensão do que está ocorrendo. Convém estar atento para o fato de que o relaxamento traz em si o benefício de rebaixar “as fiscalizações do nível consciente”, facilitando a conscientização dos conteúdos reprimidos.

Emoções Vegetativas

Imagine o organismo como um grande animal unicelular, como, por exemplo, uma ameba ou um metazoário. Mantenha essa imagem simplificada em sua mente quando pensar em você mesmo, suas emoções e reações. Ao pensar sobre todos os diferentes processos que ocorrem dentro de você, o processo metabólico, o vasomotor, o cardiovascular, o respiratório, etc., saiba que, embora você seja composto por processos mais complexos, fundamentalmente eles não são diferentes da ordem básica da vida vegetativa. Como cada célula que pulsa em nosso corpo, somos seres pulsantes.

E essa pulsação é o movimento alternado de contração e expansão que se pode encontrar em todos os lugares em que existe um sopro de vida. É dessa forma que a água se move nos oceanos e nos rios; em um fluxo contínuo que formam ondas e curvas, continuamente porque não o vemos interromper – apesar de haver uma constante mudança de maré, para dentro e para fora, uma precipitação de fluidos como a corrente de nosso sangue, um impulso interno que mantém seu ritmo constante, como também as batidas de nosso coração.

Se você está consciente da vida vegetativa dentro de você, pode sentir esses movimentos sutis, como ondas suaves ou fortes. Há as correntes do plasma que conduzem suas sensações até sua mente. Através dessas ondas, você pode encontrar seu ritmo, e o ritmo que você ousa sentir é sua identidade. E se você não consegue reconhecer esses movimentos através de sua mente consciente, é porque eles não são únicos para você, mas universais –eles são nossas emoções vegetativas.

O Sistema Nervoso Vegetativo

Animais unicelulares que não desenvolveram um sistema nervoso ainda assim, possuem um sistema de coordenação que conduz impulsos do núcleo até a periferia, a membrana, e de volta para o centro. Essa transmissão não é neural, mas tem uma origem bio-elétrica, já que os impulsos são conduzidos através das formações de ondas das correntes do plasma.

“Nossos sentimentos e nossos corpos são como água fluindo para água. Nós aprendemos a nadar dentro das energias dos sentidos(do corpo)”TARTHANG TULKU

Mesmo nos estágios mais primitivos de desenvolvimento, o corpo do animal possui um aparato central para a produção de bioeletricidade. No metazoário, esse aparato consiste dos assim chamados gânglios vegetativos, conglomerados de células nervosas que são dispostas em intervalos regulares e são conectadas por finos ligamentos a todos os órgãos e suas partes. Eles regulam as funções involuntárias da vida e são os órgãos dos sentimentos e sensações vegetativas. Eles formam uma unidade conjuntiva, um assim chamado “syncitium” e se dividem ao mesmo tempo em dois grupos com uma função oposta: simpático e parasimpático (citação extraída de Wilhelm Reich: “A Função do Orgasmo”.) O grupo simpático tem por função lidar com as reações de sobrevivência provocadas pelo ambiente externo, como por exemplo, no caso de ataque ou fuga ou em qualquer situação de emergência . O grupo parasimpático tem por função manter constantes os processos internos de sobrevivência, o batimento cardíaco e o metabolismo basal.

O processo global de sobrevivência é produzido por uma interação constante entre esses dois grupos, que trabalham reciprocamente; um por vez Isso acontece não apenas porque eles tem diferentes funções, mas porque a atividade parassimpática tem uma relação específica com os subprodutos do simpático. Ela tem também por função dissolver internamente as impulsões e impressões causadas pelas reações aos estímulos externos. Assim, dentro do processo parasimpático pode ocorrer uma extensão do processo metabólico, depois do evento, a fim de descarregar o excesso simpático.

“Se você expressar o que está dentro de você,

“Então o que está dentro de você

“Será a sua salvação.

“Se você não expressar o que está dentro de você,

“Irá destruí-lo.”

– Em Gnostic Gospels – De Elaine Pages, Random House,1979.

O centro da regulação vegetativa

No animal unicelular esse processo é espontaneamente realizado pelos movimentos pulsatórios da célula, que libera uma energia excessiva através de expansões e contrações alternadas. Na expansão, a célula assimila fluído e nutrição da água na contração, a célula descarrega fluido e resíduos. Essa atividade rítmica e pulsatória, que é o estado geral de relaxamento e função parassimpática, permite à célula eliminar constantemente elementos perturbadores, ao mesmo tempo em que gera energia para vitalizar funcionalmente o organismo. A regulação vegetativa é produzida pelas lentas ondas de correntes plamáticas que estão curando o organismo de dois modos:

1. Na descarga que se segue à fase de recuperação posterior ao evento estressante quando os subprodutos do stress são eliminados;

2. Na fase de reabilitação, que se segue consequentemente para vitalizar e recarregar a célula.

No organismo multicelular, são os órgãos digestivos – os intestinos – que estão a cargo desses procedimentos pós-afetivo. De modo similar ao mecanismo de regulação pulsatório do animal unicelular, os intestinos geram correntes de plasma através de seus movimentos de contração, a peristalse. Sob condições favoráveis, a atividade peristáltica é capaz de reabsorver quaisquer restos ou resíduos do sistema e estimular os órgãos secretores e excretores a promover a descarga final.

Esse processo de limpeza é um fenômeno biológico, que é necessário para o organismo, para que ele possa regular e estabilizar o equilíbrio vegetativo no dia-a-dia. Entretanto, essa regulação só pode ocorrer quando não há nenhuma tensão interna impedindo as correntes de plasma nas paredes intestinais.

Se esse procedimento pós-afetivo vier acompanhado de ansiedade e contração, só vai se dar uma recuperação artificial e não haverá reabilitação. Então, a função parassimpática do centro de regulação afetiva não pode ocorrer, os subprodutos de stress permanecem e o ritmo biológico é interrompido. Todas as vezes que uma condição pós-afetiva não consegue promover descarga, reabilitação e recarga suficientes, o organismo perde parte de sua flexibilidade. Daí, as correntes de plasma diminuem de ritmo e nós perdemos nossas emoções.

Minha crença é que o sangue e a carne sejam mais sábios do que o intelecto. O inconsciente do corpo é o lugar onde a vida borbulha em nós. É como nos sabemos que estamos vivos, vivos nas profundezas de nossas almas, e em contato com as vívidas extensões do cosmo. – D. H. Lawrence

Tocar é uma Resposta Natural de Amor e Excitação. 

É impossível pensar em amar alguém sem querer estar perto e de tempo em tempo, tocá-lo.

Nós como terapeutas, nos diz Robert Hilton – Ph. D. – Analista Bioenergético, freqüentemente ouvimos a queixa: -“Ele diz que me ama, mas nunca me toca.” Isto não combina. Na verdade há um acréscimo de energia quando você ama alguém há um acréscimo de energia no corpo que te move em direção á expressão. Segundo Dr. Stephen Sinatra, Cardiologista e Analista Bioenergético, os braços do embrião se desenvolvem a partir de finos brotos ligados ao coração.

Quando você ama alguém você quer abraçar. Isso é verdadeiro na paixão, mas também quando você ama alguém que está magoado; nossa inclinação natural é tocar, beijar o que está ferido para faze-lo sarar. Nós queremos segurar aqueles que amamos, que estão feridos.

Tocar também é natural quando estamos compartilhando uma excitação mútua. Para Robert Hilton, amor e excitação nos movem naturalmente para expressar o acréscimo de energia através do contato físico.

“… apesar de nossas diferenças, somos todos semelhantes. Além de identidade e desejos, existe um núcleo comum do eu – uma humanidade essencial cuja natureza é paz, e cuja expressão é pensamento, e cuja ação é amor incondicional. Quando nos identificamos com esse núcleo interno, respeitando-o e honrando-o nos outros e em nós mesmos, experienciamos a cura em todas as áreas da vida”. – Joan Borysenko, em Minding the Body, Mending the Mind.

Tradução, notas e comentários de Mariangela G. Donice 
E-mail: mgdonice@terra.com.br – Psicóloga com especialização em Psicoprofilaxia Obstétrica, pelo Instituto Sedes Sapientiae; certificada e supervisora em Análise Bioenergética pelo IABSP – Instituto de Análise Bioenergética São Paulo, membro executivo deste Instituto, filiado ao “The International Institute for Bioenergetic Analysis-N.Y-IIBA”.


Bibliografia:

(1) A Espiritualidade do Contato-Silja Wendelstadt da Revista Internacional ANIMA E CORPO de psicologia somática – (outono/97- Milão).

(2) Curso de Especialização em Psicoprofilaxia Obstétrica-Sedes Sapientiae /1980.

(3) The Active Birth Partners – Janet Balaska.

(4) Toques Sutis -Uma experiência de vida com o trabalho de PETHÖ SÁNDOR – Summus.

(5) Material do Instituto de Bio-Dinâmica – Gerda Boyesen.

(6) O Toque em Psicoterapia – Robert Hilton-, Ph. D. International Trainer of IIBA.

(7) O Despertar do Tigre – Curando o Trauma – Peter A. Levine – Summus Editora.

“O Corpo em Jung”(1) – Rosa Farah

(Revista “Hermes” no. 1)

Ainda hoje, mesmo entre terapeutas junguianos, podemos por vezes observar algumas reações de surpresa ao mencionarmos a aplicação das técnicas de trabalho corporal associadas à Psicologia Analítica de C.G. Jung. Tal fato deve-se apenas em parte à maior divulgação em nosso meio das abordagens corporais derivadas do trabalho de Reich e seus seguidores (a Bioenergética, por exemplo), ou mesmo das chamadas formas “alternativas” de intervenção terapêutica.

Embora existam razões históricas mais complexas para que os processos corporais permanecessem até então aparentemente à parte das considerações dos psicoterapeutas não é nosso objetivo aqui detalhar tais razões(2). Vamos mencionar apenas como ilustração destes fatores a polêmica estabelecida – dentro do próprio meio psicanalítico – pelas contestações apresentadas por Reich: Conforme sabemos, suas críticas foram dirigidas não apenas a alguns dos postulados teóricos e metodológicos da Psicanálise. As próprias estruturas de poder subjacentes às instituições acadêmico-científicas também foram alvo direto de sua análise. A partir daí, o posicionamento científico de Reich passou a ser conhecido de forma inseparavelmente associada à sua atitude contestadora.

A polêmica resultante da repercussão de suas propostas contribuiu em grande parte para Reich passar à História da Psicologia como sendo um contestador pioneiro, especialmente no assunto referente à consideração dos processos corporais na busca de compreensão dos dinamismos psicológicos.

Não se pretende aqui entrar em detalhes sobre os aspectos inovadores de sua obra, embora o tema seja de extremo interesse e valia para uma maior compreensão da evolução da Psicologia ocidental. Nossa intenção inicial é chamar a atenção para o fato de a polêmica envolvendo a história do corpo na Psicologia não ter se originado com as proposições de Reich e seus seguidores.

Em “Tocar, Terapia do Corpo e Psicologia Profunda”, McNeely(3), terapeuta junguiana, apresenta um esclarecedor apanhado histórico sobre aqueles que considera como pioneiros da somatoterapia(4).

“Considero pioneiros da somatoterapia Freud, Sandor Ferenczi, Alfred Adler, Groddeck, Wilhelm Reich e Jung. Eles foram naturalmente influenciados por outros: Nietzsche, Kretschmer, Krafft-Ebing, Schiller, antropólogos, etc.

Começo por estes seis terapeutas porque sua principal preocupação com relação ao corpo foi a distribuição da energia (conforme se vê principalmente na teoria dos impulsos). Descobre-se que nesta matéria eles estiveram juntos, discordaram e, por fim, se separaram.” (5)

Estamos destacando aqui um elemento fundamental para a compreensão sobre a evolução da atenção dada ao corpo na história da Psicologia ocidental: as dificuldades para o equacionamento da relação corpo-mente não provêm apenas da complexidade inerente aos processos psicofísicos envolvidos. Se mesmo em nossos dias nos defrontamos ainda com muitos obstáculos – fruto de preconceitos determinados ainda pelo espírito de nossa época – para o desenvolvimento de certos níveis do nosso trabalho, o que não estaria então ocorrendo naqueles tempos e lugares, no âmbito acadêmico onde viveram e trabalharam os pioneiros da Psicologia Profunda? Vejamos o pensamento de McNeely a respeito.

“A resistência da sociedade para com aquilo que se revelava foi impressionante. Freud e seus colegas estavam descobrindo que a moralidade e a neurose relacionavam-se. De algum modo, a energia da unidade mente-corpo era capaz de direcionar-se mal, transformando-se em sintomas físicos, dizendo realmente que um corpo doente ou perturbado indica uma psique perturbada que necessita de cura. Esta não era uma mensagem popular.” (6)

Não nos parece necessário detalhar neste momento a apresentação de elementos demonstrativos do aspecto polêmico da consideração do corpo na Psicologia.

Esses breves comentários têm por finalidade apenas situar e destacar o fato que, em época idêntica à mencionada por McNeely – e portanto em meio ao mesmo clima descrito -, C. G. Jung ter sido um dos pioneiros a abrir caminhos para uma nova forma de abordagem da questão da integração corpo-mente. Cada pesquisador de então, de forma pessoal, desenvolvia não apenas uma teoria, pois, conforme palavras do próprio Jung,

“Todo psicoterapeuta não só tem o seu método: ele próprio é esse método.” (7)

A maneira escolhida por Jung para expressar suas considerações sobre a questão do paralelismo psicofísico, parece-nos, foi intencionalmente parcimoniosa. Talvez mesmo cautelosa, especialmente quando perguntado diretamente a respeito, tal como consta nos relatos da primeira e segunda conferências que proferiu em Londres, 1935, transcritas em Fundamentos de Psicologia Analítica (8).

Tal atitude, embora possa parecer contraditória com outros momentos ousados de sua obra, devia-se muito mais ao fato de ser ele um homem consciente do risco representado pela atitude de pôr-se em confronto direto com a forma de pensar da época. Em suas memórias, a certa altura, diz textualmente:

“Percebi que é inútil falar aos outros sobre coisas que não sabem. Compreendi que uma idéia nova, isto é, um aspecto inusitado das coisas só se afirma pelos fatos.” (9)

Parece-nos ter Jung escolhido um outro caminho, em lugar de participar da polêmica reinante a respeito do tema corpo: a observação e registro dos fatos tal como se lhes apresentavam. E então, quando assim lhe foi possível apresentar suas idéias – isto é, corroboradas por demonstrações fatuais – não deixou de apresentá-las de modo assertivo.

A obra de Jung poderá surpreender o leitor disposto a localizar suas inúmeras menções à correlações psicofísicas. Porém mais esclarecedor do que qualquer argumento aqui apresentado será a própria constatação desse fato, por meio de uma consulta direta à fonte.

Sobre o material escolhido para a pesquisa:

Para realizar esta pequena pesquisa procuramos selecionar, na obra de Jung, algum material adequado ao objetivo expresso no título deste artigo: ilustrar a maneira direta e explícita com que este autor faz referências a processos corporais, mencionando-os como componentes intrinsecamente interligados aos dinamismos psíquicos.

Localizar e destacar tais referências parece-nos uma maneira bastante clara e objetiva de ilustrar um aspecto de fundamental interesse na Psicologia junguiana: o fato de que a maneira utilizada por Jung para mencionar o dado corporal, já deixava implícita a possibilidade de vir a se desenvolver uma

forma “junguiana” de abordagem do corpo em Psicologia. Um texto em especial foi então escolhido: Trata-se da edição das conhecidas “Conferências de Tavistock”, uma espécie de introdução, didaticamente organizada, ao pensamento de Jung.

Esta obra, conforme já mencionamos, compõe-se do relato de cinco conferências proferidas por Jung em Londres em 1935. Na edição brasileira, aparece sob o título Fundamentos de Psicologia Analítica (10).

Uma das razões motivadoras de nossa escolha por esse texto é o fato de, mesmo sendo dirigida a psicoterapeutas, a apresentação da Psicologia Analítica ser ali realizada em termos introdutórios. Assim, os principais conceitos e idéias de Jung são expressos de forma abrangente e clara, sem perder a autenticidade garantida pelo fato ser o próprio autor quem os expõe.

Procedimento utilizado:

A prática adotada em nossa pesquisa foi a seguinte: elaboramos um esquema referente a cada conferência, para ser utilizado como uma espécie de roteiro de leitura. Esse esquema colocou em destaque os principais conceitos e idéias apresentados e/ou comentados por Jung ao longo de suas falas. Na seqüência, destacamos os trechos correspondentes, em cada parágrafo do texto, aos momentos em que o autor expressou algum tipo de relação ou paralelo entre os processos psicofísicos.

Foi possível assim observar diferentes níveis ou tipos de menções ao corpo (e/ou seus processos) sendo expressas nas falas de Jung: em alguns momentos trata-se literalmente de uma relação formulada pelo autor, no real sentido do termo. Em outros, consiste numa hipótese, uma simples menção ao corpo ou,

ainda, uma exemplificação de algum processo ou fenômeno corporal. Optamos por incluir todos os tópicos voltados a nossa finalidade – destacar menções ao dado corporal -, sem nos preocuparmos em discriminar, generalizar ou classificar o tipo de consideração feita em cada momento.

Citações ilustrativas sobre os dados coletados:

Antes de passarmos às citações desejamos deixar clara a idéia de que estas ilustrações não pretendem tornar prescindível a leitura (ou releitura) do texto integral. Ao contrário, esperamos que esta apresentação sirva de estímulo à sua consulta do original. Porém existe uma razão para adotarmos esta forma – a citação – e não apenas a menção aos parágrafos e trechos pertinentes: a visão conjunta dos textos selecionados fornecerá ao leitor, em nossa forma de entender, uma percepção diferenciada dos elementos assim destacados no pensamento de Jung.

1. Falando sobre a relação consciente <–> inconsciente (11):

“A consciência é sobretudo o produto da percepção e orientação no mundo externo, que provavelmente se localiza no cérebro e sua origem seria ectodérmica. No tempo de nossos ancestrais essa mesma consciência derivaria de um relacionamento sensorial da pele com o mundo exterior. É bem possível que a consciência, derivada dessa localização cerebral, retenha tais qualidades de sensação e orientação.” (12) # 14

2. Ao falar sobre o ego e sua relação com a consciência:

“E o que seria o ego?

É um dado complexo formado primeiramente por uma percepção geral de nosso corpo e existência e, a seguir, pelos registros de nossa memória.(…) Esses dois fatores são os principais componentes do ego, que nos possibilitam considerá-lo como um complexo de fatos psíquicos. A força de atração desse

complexo é poderosa como a de um imã: é ele que atrai os conteúdos do inconsciente, daquela região obscura sobre a qual nada se conhece. Ele também chama a si impressões do exterior que se tornam conscientes ao seu contato. Caso não haja este contato, tais impressões permanecerãoinconscientes.” # 18

3. Diferenciando afeto e sentimento:

“O problema está apenas numa questão de grau. Se houver um valor obsessivamente forte, sua tendência é tornar-se uma emoção num dado momento, ou seja, quando atingir a intensidade suficiente para causar uma enervação fisiológica. Todo processo mental provavelmente causa ligeiras enervações deste tipo, e são realmente tão pequenas que não há meios de demonstrá-las(13).

Existe, entretanto, um método bastante sensível de registrar as emoções em suas manifestações fisiológicas; trata-se do efeito psicogalvânico(14). Baseia-se na diminuição da resistência elétrica da pele sob influência emocional, o que não se dá sob influência do sentimento.” (15) # 48

4. Falando a respeito da relação corpo-mente:

“A relação corpo-mente constitui um problema extremamente difícil. Pela teoria de James-Lange, o afeto é resultado de alteração fisiológica. A pergunta: Corpo ou psique é fator preponderante? sempre será respondida segundo diferenças temperamentais. Aqueles que por temperamento preferem a teoria da supremacia do corpo afirmarão que os processos mentais são epifenômenos da química fisiológica. Os que acreditam mais no espírito adotarão a tese contrária: o corpo é apêndice da mente e a causalidade reside no espírito. A questão tem aspectos filosóficos e por não ser filósofo não posso arrogar a mim a decisão. Tudo o que se pode observar empiricamente é que processos do corpo e processos mentais desenrolam-se simultaneamente e de maneira totalmente misteriosa para nós. É por causa de nossa cabeça lamentável que não podemos conceber corpo e psique como sendo uma única coisa.

A Física moderna está sujeita à mesma dificuldade: atentemos para o que acontece com a luz! Comporta-se como se fosse composta de oscilações e ainda formada por corpúsculos. Foi necessário uma fórmula matemática muito complexa, cujo autor é M. de Broglie, para auxiliar a mente humana a conceber a possibilidade de corpúsculos e oscilações serem dois fenômenos que formam uma única e mesma realidade(16). É impossível pensar isso, mas somos obrigados a admiti-lo como postulado.

“Do mesmo modo o chamado paralelismo psicofísico forma um outro problema insolúvel. Tome-se por exemplo o caso da febre tifóide e suas contaminações psíquicas; se os fatores psíquicos forem confundidos com uma causalidade atingiríamos conclusões absurdas. O máximo que se pode afirmar é a existência de certas condições fisiológicas que são claramente produzidas por doenças mentais, e outras que não são causadas, porém meramente acompanhadas de processos psíquicos. Corpo e psique são os dois aspectos do ser vivo, e isso é tudo o que sabemos.

Assim prefiro afirmar que os dois elementos agem simultaneamente, de forma milagrosa, e é melhor deixarmos as coisas assim, pois não podemos imaginá-las juntas. Para meu próprio uso cunhei um termo que ilustra essa existência simultânea; penso que existe um princípio particular de sincronicidade(17) ativa no mundo, fazendo com que fatos de certa maneira aconteçam juntos como se fossem um só, apesar de não captarmos essa integração. Talvez um dia possamos descobrir um novo tipo de método matemático, através do qual fiquem provadas essas identidades. Mas atualmente sinto-me totalmente incapaz de afirmar se é o corpo ou a psique que prevalece.” # 69/70

5. Ao final da segunda conferência, um dos presentes retoma, na forma de novo questionamento, a discussão do paralelo psicofísico (# 135). Pode-se perceber, na colocação da pergunta a tentativa de cobrar de Jung a retomada da análise de um sonho por ele realizada em outro contexto. A partir da interpretação do mencionado sonho, Jung teria identificado a base orgânica da doença do sonhador, conforme é relatado na nota 33, pág. 60 do texto original. Dr. Bion pergunta, então, se Jung coloca apenas como uma analogia os paralelos entre as formas arcaicas do corpo e da mente ou se ele percebe uma relação mais profunda entre elas. A íntegra das respostas de Jung abrange várias páginas, motivo pelo qual novamente recomendamos uma consulta ao texto original(# 135 a 144). Como ilustração da cautela adotada por Jung frente à questão citaremos aqui alguns trechos dessa sua fala.

“O senhor voltou novamente ao problema do paralelo psicofísico, ponto extremamente controvertido, sem resposta, pois está fora do conhecimento humano. Como tentei explicar ontem, as duas coisas acontecem juntas, de maneira peculiar, e são, creio, dois aspectos diferentes apenas para a nossa inteligência, e não na realidade. Nós as concebemos como duas formas devido a nossa total incapacidade de concebê-las juntas.” # 136

“O caso mencionado pelo senhor foi o do pequeno mastodonte. Explicar o que o mastodonte significa de orgânico e por que devo tomar tal sonho como sintoma fisiológico desencadearia uma tal polêmica que os senhores acabariam por me acusar de obscurantismo. Tais coisas são realmente obscuras, e eu teria de falar da mente básica, que pensa por meio de padrões arquetípicos. Quando falo de tais padrões, aqueles que têm consciência deles entendem, mas os outros podem acabar pensando assim: ‘Esse sujeito é completamente louco, pois se preocupa com diferenças entre mastodontes, cobras e cavalos’. Eu deveria dar-lhes um curso de aproximadamente quatro semestres sobre simbologia para que os senhores conseguissem seguir o que eu digo.” # 138

“Quando ouvem o que digo, costumam dizer: é passe de mágica. Também se pensava assim na Idade média e se perguntava: Como se pode afirmar que Júpiter tem satélites? Se a gente responder que é pelo telescópio, o que representará isso para um público medieval?.” # 139

“Não quero me superestimar por isso; fico sempre perplexo quando meus colegas perguntam: Como você estabelece um diagnóstico desses ou chega a tal conclusão? Respondo normalmente: Explico, se você me permitir dizer o que você deve fazer a fim de entendê-lo.” # 140

6. Ao discorrer sobre os complexos:

“…provavelmente os senhores já observaram que, ao me fazerem perguntas difíceis, não consigo respondê-las imediatamente porque o assunto é importante, e o meu tempo de reação, muito longo. Começo a gaguejar e a memória não fornece o material desejado. Tais distúrbios são devidos a complexos – mesmo que o assunto tratado não se refira a um complexo meu. Trata-se simplesmente de um assunto importante, tudo o que é acentuadamente sentido torna-se difícil de ser abordado, porque esses conteúdos encontram-se, de uma forma ou de outra, ligados com reações fisiológicas, com processos cardíacos, com o tônus dos vasos sangüíneos, a condição dos intestinos, a enervação da pele, a respiração. Quando houver um tônus alto, será como se esse complexo particular tivesse um corpo próprio e até certo ponto localizado em meu corpo, o que o tornará incontrolável por estar arraigado, acabando por irritar meus nervos. Aquilo que é dotado de pouco tônus e pouco valor emocional pode facilmente ser posto de lado porque não tem raízes. Não é aderente.” # 148

“…O complexo, por ser dotado de tensão ou energia própria, tem a tendência de formar, também por conta própria, uma pequena personalidade. Apresenta uma espécie de corpo e uma determinada quantidade de fisiologia própria, podendo perturbar o coração, o estômago, a pele.(…) Quando se fala em força de vontade, naturalmente se pensa em um ego. Onde, pois, está o ego, ao qual pertence a força dos complexos? O que conhecemos é o nosso próprio complexo do ego, que supomos ter o domínio pleno do nosso corpo. Não é bem isso, mas vamos considerar que ele seja um centro que está de posse do corpo, que exista um foco denominado ego, dotado de vontade e que possa fazer alguma coisa por meio de seus componentes.” # 149.

7. Comentando um sonho, Jung estabelece relações entre imagens oníricas e estruturas orgânicas do sonhador. Novamente reproduziremos aqui apenas as correlações estabelecidas. O contexto global poderá ser localizado nos parágrafos 180 a 201 do texto original.

“…Afirmo – e quando digo isso tenho algumas razões para fazê-lo – que representações de fatos psíquicos através de imagens como cobra, lagarto, caranguejo, mastodonte ou animais semelhantes também representam fatos orgânicos. A serpente, via de regra, representa o sistema raquidiano (cérebro espinhal), particularmente o bulbo e a medula. O caranguejo, por outro lado, sendo dotado apenas de um sistema simpático, representa as funções relativas a esse sistema nervoso, mais o parassimpático, ambos localizados no abdômen. O caranguejo é uma coisa abdominal. Então, se traduzirmos o texto do sonho, poderemos ler: se você continuar assim, seu sistema simpático e raquidiano voltar-se-á contra você, e aí não haverá como fugir. E é bem isso o que está acontecendo. Os sintomas de sua neurose expressam a rebelião das funções simpáticas e do sistema raquidiano contra a sua atitude consciente.” # 194(…)

“Eis como se comportam as pessoas que só têm cabeça. Usam o intelecto, a fim de afastarem as coisas por meio de um raciocínio qualquer. Dizem: Isso é insensato, portanto, não pode ser, portanto, não é. É assim que faz o nosso amigo. Ele simplesmente abole o monstro através do raciocínio.” # 199

8. Comentando um sonho de criança Jung menciona outras relações entre símbolos presentes no conteúdo onírico e estruturas orgânicas da sonhadora. Os conteúdos envolvidos são: a) uma roda de fogo despencando morro abaixo ameaçando queimar a sonhadora; b) uma barata picando a sonhadora.

“A barata segundo penso, relaciona-se ao sistema simpático. Daí ser possível calcular que haja certos processos psicológicos estranhos desenrolando-se na criança, que afetam esse sistema, o que poderá provocar-lhe alguma desordem abdominal ou intestinal. A afirmação mais cautelosa que nos podemos permitir é a de que pode ter havido um certo acúmulo de energia no sistema simpático, causando ligeiros distúrbios. O que também é expresso pela simbologia da roda de fogo, que em seu sonho parece surgir como um símbolo solar, correspondendo o fogo, na filosofia tântrica, ao chamado manipura chacra, que se localiza no abdômen. Nos sintomas prodrômicos da epilepsia, às vezes encontramos a idéia de uma roda que gira no interior da pessoa. Isto também expressa uma manifestação duma natureza simpática. A imagem da roda que gira lembra a crucifixão de Ixion. O sonho da garotinha é um sonho arquetípico, um desses estranhos sonhos que as crianças costumam ter.” # 203

9. Ao falar sobre o caráter emocional da transferência:

(…)”As emoções não são manejáveis como as idéias ou os pensamentos, pois são idênticas a certas condições físicas, sendo, portanto, profundamente enraizadas na matéria pesada do corpo.(…)” # 317

10. Ao falar sobre o caráter contagioso das emoções:

“A projeção de conteúdos emocionais sempre tem uma influência particular. As emoções são contagiosas, estando profundamente enraizadas no sistema simpático, que tem o mesmo sentido que a palavra ‘sympathicus’.(…)” # 318

11. Mais adiante, ainda tratando do tema transferência, Jung comenta as somatizações possíveis de acometer os terapeutas, causadas pela infeção psíquica decorrente das contínuas projeções a que estão expostos durante seu trabalho:

“São espinhos do ofício do terapeuta tornar-se psiquicamente infectado e envenenado pelas projeções às quais se expõe. Tem de estar continuamente em guarda contra a auto-estima excessiva. Mas o veneno não afeta apenas a sua psique. Pode ser que perturbe finalmente o seu sistema simpático.

Tenho observado um número extraordinário de doenças físicas entre os psicoterapeutas; doenças que não se ajustam à sintomatologia médica conhecida, e que eu atribuo à contínua onda de projeções da qual o analista não discrimina a sua própria psicologia. A condição emocional particular do paciente exerce um efeito contagioso. Pode-se dizer que ela provoca as mesmas vibrações no sistema nervoso do paciente e, conseqüentemente, como os alienistas, os psicoterapeutas também são passíveis de tornarem-se um pouco esquisitos. Não deve-mos nunca esquecer esse fato, pois liga-se profundamente com o problema da transferência.” # 356

12. Comentando a eclosão do nazismo na Alemanha – como resultante da ativação de conteúdos arquetípicos -, Jung enfatiza a possibilidade de atuação das forças do inconsciente sobre as estruturas orgânicas. Mais uma vez, devemos ressaltar a recomendação da leitura integral do texto original para a real compreensão das idéias do autor. Vale lembrar a época destas conferências: entre as duas guerras mundiais (1935).

(…) “Eu já pressentira esse fato em 1918, quando disse que a ‘besta loura está se mexendo em seu sono’ e alguma coisa vai acontecer na Alemanha(18).

Naquela época, nenhum psicólogo entendeu o que eu queria dizer, pois não entendiam que nossa Psicologia individual não passa de uma pele bem fina, uma pequena onda sobre um oceano de Psicologia coletiva. O fator poderoso, aquele que muda a vida por completo, que muda a superfície do mundo conhecido, que faz a História, é a Psicologia coletiva que se move de acordo com leis totalmente diferentes daquelas que regem nossa consciência. # 371(…)

(…)”Não se pode resistir a tal poder. Os acontecimentos escapam a todas as medidas e fogem à capacidade de raciocinar. O cérebro acaba não valendo nada e o sistema simpático é tomado. Ê uma força que simplesmente fascina as pessoas de dentro para fora, é o inconsciente coletivo que está sendo ativado, um arquétipo comum a todos os que vêm à vida. # 372(…)

b A platéia apreende, a partir de novos comentários acrescidos sobre a questão anterior, a posição de Jung sobre a neurose enquanto tentativa de autocura e solicita sua confirmação de tal entendimento. Em resposta a essa solicitação, Jung apresenta sua percepção dos aspectos positivos das patologias às doenças físicas:

“Participante: Posso dizer então que a irrupção de uma doença neurótica, do ponto de vista do desenvolvimento humano, é um fator favorável?

Jung: É isso mesmo, e fico contente que esse ponto tenha sido levantado. Meu ponto de vista é realmente este. Não sou totalmente pessimista em relação a uma neurose. Em muitos casos deveríamos dizer: ‘Graças a Deus ele decidiu ficar neurótico’. Essa é uma tentativa de autocura, bem como qualquer doença física também o é. Não se pode mais entender a doença como um <ens per se>, como uma coisa desenraizada, como há algum tempo se julgava que fosse. A Medicina moderna, a clínica, por exemplo, concebe a doença como um sistema composto de fatores prejudiciais e de elementos que levam à cura. O mesmo se dá com a neurose, que é uma tentativa do sistema psíquico auto-regulador de restaurar o equilíbrio, que em nada difere da função dos sonhos, sendo apenas mais drástica e pressionadora.” # 388 e 389

Comentário final:

Apresentamos neste artigo apenas uma pequena seleção ilustrativa dos dados coletados em nossa pesquisa. O levantamento feito ao longo de todo o livro permitiu-nos, inicialmente, a constatação de alguns aspectos quantitativos interessantes, não tanto pelos números em si mesmos, mas pelo que podem nos mostrar a respeito da relação estabelecida entre Jung e sua platéia.

Essa mesma releitura implicou ainda numa espécie de imersão nas entrelinhas das cinco conferências. E durante esse mergulho na atmosfera provavelmente dominante durante a apresentação e discussão das idéias de Jung, nossa atenção se voltou para algumas observações e impressões a serem comentadas a seguir. Do ponto de vista mais objetivo, temos já um aspecto quantitativo a destacar. Realizando uma rápida contagem, dispomos dos seguintes números: De um total de 415 parágrafos, constituintes das cinco conferências relatadas, nosso levantamento aponta uma soma de 97 parágrafos selecionados por conterem algum tipo de menção ao corpo e/ou suas estruturas componentes (dos quais apenas 13 foram reproduzidos aqui(19)). Esses números já nos dizem alguma coisa, especialmente se tivermos em conta o fato de essa não ser, a princípio, uma obra sobre a questão do corpo na Psicologia!

Mas, se formos um pouco além e observarmos a distribuição dos parágrafos selecionados ao longo das cinco conferências, um dado a mais chamará nossa atenção. Esses 97 parágrafos estão distribuídos da seguinte maneira:

* “Primeira conferência”: 13 parágrafos;

* “Segunda conferência”: 25 parágrafos;

* “Terceira conferência”: 28 parágrafos;

* “Quarta conferência”: 11 parágrafos;

* “Quinta conferência”: 20 parágrafos.

Percebemos, então, o fato de a freqüência no uso de algum tipo de menção ao dado corporal ter aumentado, progressivamente, desde a primeira até a terceira noite. Em seguida caiu, durante a quarta conferência, para voltar a aumentar numericamente na última apresentação. Esses números não parecem apenas casuais. Acompanhando a apresentação das idéias de Jung, o leitor atento certamente poderá perceber os movimentos – tanto do próprio Jung quanto por parte da platéia – frente às colocações mais diretamente relacionadas ao tema dos paralelos psicofísicos, tornando bastante significativa a distribuição dos números acima apontada.

Durante as duas primeiras conferências, Jung introduz de maneira fluente, tranqüila, quase casual, sua visão integradora de tais processos. Expressa-se de forma bastante direta e enfática, ao estabelecer as primeiras correlações psicofísicas, sem com isso parecer ter intenção de explicar tais paralelismos. Esta “tonalidade” de suas falas podem ser observadas, por exemplo, nos momentos em que aborda: a origem da consciência (#14); o ego (#18), ou ainda quando diferencia afeto e sentimento (# 48).

Ao final da primeira conferência, um dos presentes coloca uma pergunta mais direta a respeito – # 68. A questão, no entanto, é formulada em termos do dualismo causa-efeito: os afetos seriam causados por condições fisiológicas ou o processo se daria de modo inverso?

Em resposta, Jung expõe com bastante clareza a posição por ele adotada: ressalta a complexidade do problema, bem como os aspectos filosóficos envolvidos. Mais uma vez ressalta ainda, enfatizando seu procedimento, a importância da observação empírica dos fatos. E, nessa medida, apresenta a constatação a respeito da simultaneidade dos eventos psicofísicos. Sublinhando não pretender esgotar sua explicação, propõe o princípio da sincronicidade como um recurso para ampliar parcial e temporariamente a compreensão a respeito. Percebe-se já nesse momento que, embora Jung coloque sua posição de forma clara e aberta a futuras ampliações, não se dispõe a entrar em discussões meramente teóricas a respeito da questão, como lhe foi proposto por alguns dos ouvintes. Mas a platéia não parece dar-se por satisfeita com sua resposta (ou seria com sua não adesão à polêmica?) ao tema. Vejamos como evolui esse ponto do diálogo entre Jung e os presentes às conferências.

Ao final da terceira exposição e de forma quase provocativa (# 135 a 137), mais uma vez alguém retoma a mesma questão. Jung de início responde atenciosamente ao participante proponente da questão (# 136). Diante, porém, de nova insistência da platéia, Jung inclui, numa consideração amplificadora, uma observação ao estilo dos sábios orientais frente a discípulos mais jovens e imaturos: intercala um sutil, mas certeiro, “puxão de orelhas”, ao explicar a condição necessária para o fornecimento da resposta solicitada.

“Eu deveria dar-lhes um curso de aproximadamente quatro semestres sobre simbologia para que os senhores conseguissem seguir o que eu digo.” #138

Poderíamos presumir essa observação de Jung como encerramento da questão. Essa impressão poderia até ser reforçada pelo fato de, na noite seguinte, Jung reduzir suas menções ao tema causador de tanta inquietação. Porém não foi isso o que ocorreu, visto ao final da quarta exposição, mais uma insistência no mesmo ponto ser apresentada por um dos participantes (# 299 a 302).

Dessa vez, porém, a resposta de Jung é menos paciente: mostra-se realmente decidido a considerar definida a questão. Entenda-se bem: encerrada apenas enquanto discussão, pois, ao longo da próxima conferência, Jung volta a estabelecer novos paralelos entre os processos psicofísicos, tal como fizera nas apresentações das três primeiras noites.

Outro aspecto a ser destacado é a própria maneira com que tais correlações são expressas pelo autor: fica muito claro o fato de, ao traçar esses paralelos, Jung não expressar-se de forma a estabelecer relações causais entre os eventos psicofísicos. Em lugar disto, menciona-os como simultâneos, ou, melhor dizendo, sincrônicos. Descreve os processos globais tal como os observa, de acordo com sua perspectiva integradora, em lugar de estabelecer dicotomias analíticas. Agindo assim, sua forma de expressão antecipa, em sentido mais prático do que teórico, proposições só agora presentes no âmbito da Psicologia acadêmica. Essas considerações começam a explicitar o emergir coletivo de um certo enfoque da consciência, tido como novo para nossos padrões ocidentais.

Ainda de acordo com o pensamento junguiano expresso na atualidade, o movimento acima apontado corresponde a um passo importante e previsível do processo de desenvolvimento da consciência em termos coletivos. Embora fundamental para a compreensão de algumas das proposições de Jung, a exploração deste tema, por sua amplitude, escapa ao alcance dos limites desse nosso trabalho.

Remetemos, então, o leitor interessado a autores como Neumann(20) e Whitmont(21), entre outros(22), que ocupam-se amplamente dessa questão: o emergir ou, melhor dizendo, o ressurgir da consciência matriarcal. A título apenas de ilustração, faremos uma breve citação de Whitmont a respeito.

“O caráter divisível e, posteriormente analítico da consciência patriarcal é de natureza masculina. Essa maneira particular de experimentar os acontecimentos é, evidentemente, apenas uma entre outras.

Não é uma qualidade necessária ou intrínseca à consciência enquanto tal. Acostumados que estamos ao funcionamento patriarcal, ela acabou nos parecendo a única alternativa possível. No entanto, uma consciência de natureza mais Yin, que está começando a fazer-se presente na atualidade, não funciona por meio de separações e divisões, mas através da percepção intuitiva de processos inteiros e de padrões inclusivos.” (23)

Levando em conta os pontos acima levantados, parece-nos, efetivamente, ter Jung razões de sobra para não se mostrar interessado em “discutir” a questão do paralelismo psicofísico, tão insistentemente incitada durante a realização das Conferências de Tavistock. Não, ao menos, nos termos da discussão proposta por aquela platéia. Nem poderia ser de outra forma, visto sua apreensão desses processos estar, já então, alguns passos além de sua época. Nesse aspecto, como aliás em muitos outros, Jung, em seu tempo, já estava caminhando em direções somente agora apontadas por investigadores tidos, na atualidade, como portadores de proposições inovadoras.

Por outro lado, registros datados da mesma época das conferências de Tavistock nos apresentam colocações bastante explícitas, feitas por Jung no âmbito de círculos mais restritos, onde podemos encontrar interessantes exemplos do ponto de vista amplificado com que verdadeiramente buscava compreender tais processos.. A título de ilustração apresentaremos a seguir alguns pequenos trechos de comentários feitos por ele durante os “Seminários sobre Assim falou Zarathustra” a respeito da alternância do predomínio “carne/espírito” ao longo da evolução ocidental.

“A Filosofia e a Religião são como a Psicologia quanto ao fato de que não se pode nunca colocar um princípio definitivo: é impossível, pois algo que é verdade para um estágio de desenvolvimento é bastante inadequado para outro. Então é sempre uma questão de desenvolvimento, de tempo; a melhor verdade para certo estágio é talvez veneno para outro.” (…)

“O espírito pode ser qualquer coisa, mas somente a terra pode ser algo definido. Então manter-se fiel à terra significa manter-se em relacionamento consciente com o corpo. Não fujamos e nãos nos tornemos inconscientes dos fatos corporais, pois eles nos mantém na vida real e ajudam-nos a não perder nosso caminho no mundo das meras possibilidades, onde estamos simplesmente de olhos vendados.” (….)

“Mas é perfeitamente lógico que depois de uma época que esgotou a importância do espírito, a carne deva ter sua vingança e conquistar o espírito talvez mesmo sobrepujá-lo por algum tempo. É claro que expressemos essas coisas usando os termos espírito e matéria, sem saber exatamente o que designamos através dessas palavras.

Na filosofia clássica chinesa usar-se-iam os termos Yang e Yin, e dir-se-ia que está de acordo com as regras do céu que eles invertam suas posições. Yang devora o Yin, e do Yang o Yin renasce; ele emerge de novo, e então o Yin envolve o Yang, e assim por diante. Este é o curso da natureza. Os chineses não ficam tão aborrecidos, porque eles tem observado este processo natural por muito mais tempo. Mas a nossa história não é velha o suficiente, então ficamos atônitos ao observar que o espírito devora a matéria, e então a matéria devora o espírito. É exatamente o mesmo processo. Nós fomos ensinados que Deus enviou seu filho para sobrepor o espírito à carne como um evento único na história; e agora nós aprendemos a verdade reversa, que a carne devora o espírito. E nós ainda não conseguimos acreditar nisso, embora tenha se tornado ainda mais óbvio do que quando apareceu pela primeira vez, no tempo da Reforma.”(24)

A pequena pesquisa apresentada neste capítulo nem de longe pretende esgotar o tema levantado, ou seja, o tratamento dado à questão do corpo em Jung. Ao contrário, o leitor atento poderá ampliar fartamente essa observação, ao percorrer sua vasta obra.

Nossa intenção aqui foi demonstrar de maneira breve, porém fundamentada, as formas mais ou menos sutis com que colocava sua posição essencial a respeito dessa questão. Já ao final da vida, Jung podia se permitir ser mais explícito ao colocar suas posições sobre essa questão, como exemplifica esse pequeno trecho de entrevista concedida por ele a G. Duplain em 1959. A temática geral dessa entrevista era as mudanças e adaptações necessárias para a Humanidade na entrada do terceiro milênio. Em dado momento, Duplain pergunta à Jung:

“Duplain – Mas que recomendações pode fazer para a passagem que está prestes a ocorrer e cujas dificuldades o senhor teme?

“Jung: Um espírito de maior abertura em relação ao inconsciente, uma atenção maior aos sonhos, um sentido mais agudo da totalidade do físico e do psíquico, de sua indissolubilidade; um gosto mais ativo pelo autoconhecimento. Uma higiene mental melhor estabelecida, se quisermos ver as coisas por esse prisma.” (25)

O pensamento junguiano plantou sementes férteis, e muitas já começaram a germinar, há algum tempo, na direção apontada acima. Ao longo deste nosso relato foram mencionados vários autores cujas pensamento mostra o florescimento de idéias concordantes com a recomendação presente na última citação de Jung.

Recentemente têm surgido publicações ilustrativas do movimento já muito ativo no sentido da solidificação dessa visão integradora frente à estrutura psicofísica. Um desses trabalhos soaria talvez como uma heresia aos ouvidos acadêmicos, caso tivesse surgido alguns anos antes. Trata-se da recente publicação, em português, do livro de J. P. Conger “Jung e Reich – O Corpo como Sombra”(26). Mais do que o próprio conteúdo dessa obra, destacamos aqui o aspecto no mínimo inusitado do paralelo estabelecido pelo autor já em sua apresentação. Soa-nos como se o espírito de nosso tempo já reclamasse com veemência aquela disposição antecipada por Jung: a reabilitação do corpo do exílio a que foi lançado em nossa civilização ao longo dos últimos séculos.

Ou ainda, dizendo de outro modo, a necessidade da reconciliação do ser humano com a (sua) própria natureza, como condição essencial para atingir a transcendência.

Porém, mesmo estando ainda o homem tão longe de elucidar os mistérios da união de seu ser terreno com sua alma, alguns pensadores, seguindo a trilha deixada por Jung, nos ajudam a refletir com maior inteireza sobre essa questão. É o caso de Kreinheder, ao dizer, citando Plotino: “na doença, o corpo perde contato com a alma, e não se parece com ela.”(27)

Notas e referências bibliográficas:

(1) Este artigo contem a síntese do material apresentado pela autora no capítulo homônimo do livro “Integração Psicofísica – O Trabalho Corporal e a Psicologia de C.G. Jung”, (Ed. Robe/C.I. – São Paulo, 1995). Este capítulo, por sua vez, foi elaborado com base no trabalho apresentado sob o mesmo título no “Encontro do Sedes” realizado em 1991.

(2) Mais elementos sobre estes aspectos históricos são apresentados no capítulo 1 do mesmo livro citado no item anterior.

(3) McNeely, D. A., Tocar, Terapia do Corpo e Psicologia Profunda. Ed. Cultrix, 1a. edição, São Paulo, 1987.

(4) Definição do termo “somatoterapia”, segundo a autora: “Uso o termo somatoterapia para expressar um processo que ocorre entre o indivíduo e o terapeuta que emprega o movimento e centros físicos para alcançar seu objetivo mútuo: a descoberta dos aspectos da psique antes desconhecidos. O terapeuta usa o centro físico além da atenção tradicional aos processos psíquicos, a fim de incrementar o diálogo entre o consciente e o inconsciente.” Ib, pág. 17.

(5) Ib., pág. 36.

(6) Ib., pág. 37.

(7) Jung, C. G., A Prática da Psicoterapia, Ed. Vozes, 2a. Edição, Petrópolis, 1985, pág. 84, parágrafo 198.

(8) Jung, C. G., Fundamentos de Psicologia Analítica, Ed. Vozes, 5a. Edição, Petrópolis, 1989, perguntas e respostas relatadas ao final da primeira e segunda conferências, conforme será destacado na seqüência deste capítulo.

(9) Jung, C. G., Memórias, Sonhos, Reflexões, compilação e prefácio de Aniela Jaffé, Ed. Nova Fronteira, 4a. Edição, Rio de Janeiro, 1981, pág. 100.

(10) Jung, C. G., op. cit. em 8, pág. 84, parágrafo 194.

(11) A partir desse ponto, em nome da praticidade, a indicação das localizações referentes ao relato das conferências será inserida no próprio texto. O sinal “#” indicará o número do parágrafo de “Fundamentos de Psicologia Analítica” transcrito.

(12) A origem embrionária comum (ectodérmica) da pele e do sistema nervoso central é comentada por vários autores, conforme foi relatado no capítulo 9 – “A Calatonia” – do livro citado na referência 1.

(13) Recentemente observamos o surgimento de novas áreas de pesquisa científica, peculiarmente constituídas pela integração de disciplinas até então tidas como campos independentes e específicos de investigação. Um exemplo é a Psiconeuroimunologia, um novo campo – os primeiros trabalhos datam do início da década de 80 – em que já se investiga, a nível laboratorial, aspectos bastante acurados das correlações psicofísicas. Nos Estados Unidos o Institute of Noetic Sciences (2658, Bridgeway, Sausalito, California 94965) publica o boletim Investigations com informações a respeito do andamento de tais pesquisas.

(14) Ver nota no 16, no texto original, à pág. 22.

(15) Na seqüência do texto original Jung relata um exemplo e ilustra o que acaba de citar.

(16) Ver nota no 19, no texto original, pág. 29.

(17) Ver nota no 20, no texto original, pág. 30.

(18) Ver nota no 74, no texto original, pág. 151.

(19) No capítulo homônimo deste artigo, componente do livro citado na nota de número 1, é apresentada a reprodução integral dos 97 parágrafos selecionados em nossa pesquisa.

(20) Neumann, E., História da Origem da Consciência, Ed. Cultrix, 1a. Edição, São Paulo, 1990.

(21) Whitmont, E. C., Retorno da Deusa, Summus Editorial, 1a. Edição, São Paulo, 1991.

(22) Essa questão, relativa ao ressurgimento da consciência matriarcal, e suas implicações em diferentes níveis dos processos coletivos, vem recebendo nos últimos tempos a atenção de autores junguianos. Não apenas a importância da consideração do corpo para a mais completa compreensão dos dinamismos psíquicos, mas toda uma nova postura diante de questões básicas humanas decorre desta perspectiva. Uma mostra dessa bibliografia pode ser encontrada, por exemplo, nas matérias publicadas na revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica: Junguiana. Ou, ainda, em publicações mais recentes da área, onde toda uma ênfase sobre as questões relativas ao tema pode ser constatada.

(23) Ob. cit. no item 21, pág. 78.

(24) Jung, C.G., Seminário sobre: Assim falou Zarathustra, Clube Psicológico de Zurique, 1934/1939, tradução do prof. Pethö Sándor para estudos em grupo, págs. 51 e 52.

(25) Em McGuire, W., e R. F. C. Hull, C.G. Jung: Entrevistas e Encontros; Ed. Cultrix, São Paulo, 1982 cap.: “Nas fronteiras do conhecimento”, pág. 364.

(26) Conger, J. P., Jung e Reich – O Corpo como Sombra, Ed. Summus, 1a. Edição, São Paulo, 1993. A edição original inglesa data de 1988.

(27) Kreinheder, A., Conversando com a Doença – Um diálogo de Corpo e Alma, Summus Editorial, 1a. Edição, São Paulo, 1993, pág. 32.