Pethö Sándor

Biografia

“Morte não existe – só transformação de consciência”

Sándor

O Professor Sándor sempre foi muito avesso a qualquer forma de enaltecimento de sua personalidade.

Em seu estilo de vida extremamente simples e despojado de qualquer ostentação, zelava também por sua privacidade. No entanto, sua trajetória de vida sempre despertou interesse e admiração em todos que dele se aproximaram.

Nossa intenção aqui, portanto, não é incentivar qualquer tipo de culto à sua pessoa, mas ilustrar quanto sua vida e seu trabalho foram gestos integrados de amorosa e generosa resposta frente às severas dificuldades e desafios que a vida lhe apresentou.

Sándor nasceu em 28 de abril de 1916, em Gyertyamos, região que então compreendia o sul da Hungria, e hoje compões a Iugoslávia. Foram seus pais: Tibor Sándor, juiz de Direito, e Sarolta Kafka, e teve dois irmãos. Quando Sándor tinha três anos de idade a família mudou-se para Also Göd, uma cidade de intenso movimento intelectual e eventos culturais. Foi desse convívio que provavelmente surgiu o interesse de Sándor pelas artes, em especial pela música: estudou canto lírico e chegou a pensar em tornar-se tenor. Sándor cresceu nessa atmosfera estável e refinada, e posteriormente formou-se médico na Faculdade de Medicina de Budapeste, “Paz Many Peter”, em 1943, com especialidade em Ginecologia e Obstetrícia.

Sándor já havia se casado com Marieta Marton ao se formar, e no mesmo ano de 1943 nasceu seu primeiro filho. Em 1944 nasceu o segundo filho do casal.

Com o início da guerra, porém, sobrevem uma seqüência de fatos dolorosos na sua até então tranqüila vida de jovem médico.

O avanço das tropas russas obrigou a família a deixar a Hungria em abril de 45, antes do final da guerra, em busca de refúgio mais seguro. Durante essa viagem de trem, Sándor desembarcou em uma das paradas para buscar água para os demais, que permaneceram no vagão. Nesse breve intervalo o comboio foi confundido pelas tropas americanas com um trem militar, e foi intensamente metralhado. Sándor era o único médico presente, e iniciou prontamente o atendimento aos inúmeros feridos.

Como uma espécie de ‘deferência’ as duas primeiras vítimas que trouxeram para que socorresse foram justamente, e em seqüência, seu pai e sua mãe. Sándor, ao constatar a gravidade de seus ferimentos teria dito: “Por estes não posso fazer nada. Tragam-me os demais”. Então, após prestar socorros aos demais, voltou a procurar por seus pais, constatando que já haviam falecido. Só então Sándor permitiu-se um breve momento de recolhimento: retirou-se para um ponto mais distante da cena, dentro da mata, sentou-se e permaneceu por alguns minutos em isolamento. Esse trágico episódio aconteceu em 20 de abril de 1945. Sándor estava então com 29 anos de idade.

No inverno seguinte Marieta, sua esposa, adoeceu e foi internada em um hospital. Ao ser avisado sobre o agravamento de seu estado, Sándor seguiu em meio à neve de bicicleta, o único meio de transporte viável. Ao chegar, soube que ela havia falecido de complicações respiratórias. Marieta tinha apenas 26 anos. Foi assim que, em menos de um ano, Sándor perdeu o lar, a pátria, os pais e a esposa, restando-lhe dois filhos, quase bebês, de 2 e 3 anos para cuidar.

Nessa ocasião já trabalhava como médico da Cruz Vermelha nos campos de refugiados, na Alemanha. Ali conheceu aqueles que viriam a se tornar sua nova família por adoção: O casal Irene e Jozseph Buydoso, ambos astrólogos e estudiosos de esoterismo. Irene, que era também ceramista, acolheu maternalmente as crianças. Sándor, já interessado na Psicologia Profunda, iniciou com eles seu estudo nessas matérias.

No campo de refugiados, Sándor iniciou suas observações sobre os procedimentos que dariam origem à Calatonia. Ao atender como obstetra nas enfermarias femininas deparou-se com numerosos casos de problemas circulatórios. Sem os recursos convencionais, devido à escassez da guerra, passou a ‘experimentar’ toques e manipulações suaves nas extremidades do corpo de suas pacientes, visando o alívio dos sintomas e dores. E assim iniciou a observação dos “efeitos terapêuticos do toque suave”.

O mesmo recurso foi utilizado com as pessoas que, apresentavam as mais variadas queixas: “…desde membros fantasmas e abalamento nervoso, até depressões e reações compulsivas…”*.

Sándor foi muitas vezes solicitado pelos soldados alemães, que recorriam ao “doutor que sabia tirar a dor com as mãos”. Nesses ocasiões, Sándor atendia aos pedidos de ajuda, porém com uma única condição: ficar só com o paciente para preservar sua técnica e a possibilidade de receber o precioso pagamento da época: alimentos que partilhava entre os demais refugiados…

Depois, durante os três anos em que trabalhou na Alemanha em hospitais que recebiam refugiados, tratou de pacientes poli-traumatizados:

“Aplicava-se a mesma técnica às pessoas deslocadas que se preparavam para a emigração e na população alemã abalada e constrangida, mas desta vez não em doentes das clínicas cirúrgicas, mas em pacientes das áreas psicológicas ou neuropsiquiátrica.”

Foi a partir dessas experiências que Sándor iniciou a “fundamentação multilateral” (sic) de seu trabalho, posteriormente ampliada no Brasil:

“…onde houve a possibilidade de estudar as pesquisas mais recentes sobre a formação reticular, as representações vegetativas na córtex e sobre proprioceptivos periféricos. Ao mesmo tempo acumulou-se bastante material de ordem psicológica, reforçado aqui no Brasil, por aqueles colegas que adotaram o método, particularmente na Psicologia.”

Em 1949, Sándor decidiu emigrar e recomeçar seu trabalho longe das lembranças da guerra. Contam seus familiares**, que Sándor tentou vários países: Canadá, Estados Unidos e mesmo a Argentina, onde já vivia uma tia sua. Porém, o Brasil foi o único país que os aceitou sem restrições. Sándor veio com sua família adotiva: um total de 10 pessoas, composição que nenhum outro país aceitou.

A caminho do Brasil, a bordo do “Marine Marlise”, navio de origem alemã, Sándor iniciou seus estudos de português. Além do húngaro, falava alemão, inglês e, através da sólida formação européia, sabia também as línguas clássicas: o grego e mais intensivamente o latim.

Sándor possuía um preciosismo e domínio impressionante de nosso idioma. Com freqüência usava termos, em suas traduções, desconhecidos para seus alunos. Quando perguntado, explicava seu significado acrescentando com humor: “Consta do Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa…”

Chegou ao Brasil em 14 de junho de 1949. Não pôde, porém, atuar como médico por causa da documentação necessária à validação de seu diploma. Trabalhou então como laboratorista, por quatro anos na empresa “Nitroquímica” em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo. Nos primeiros tempos de sua chegada foi bastante atuante junto à comunidade húngara de São Paulo, especialmente através da igreja dessa comunidade.

Anos depois, tendo já um maior domínio do idioma, mudou-se para a Rua Augusta, onde atendia pacientes em terapia psicológica, iniciando o trabalho que se estruturou nos moldes em que o conhecemos hoje. Passou também a ensinar suas técnicas aos profissionais brasileiros, basicamente psicólogos, que passaram a introduzir a Calatonia em sua prática clínica.

O companheiro de emigração Jozseph faleceu pouco depois da chegada ao grupo ao Brasil, mas o grupo familiar manteve-se unido. Em 1955 Sándor casou-se com Irene, assumindo então, por sua vez, a responsabilidade de cuidar paternalmente da família do amigo, mesmo após o falecimento de Irene, em 1966. Seus familiares por adoção e afinidade são hoje, quase todos, profissionais dedicados à continuidade de seu trabalho.

Nessa época, meados dos anos cinqüenta, Sándor passou a lecionar “Psicologia Profunda” na Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Mantinha também, nos grupos já mencionados, o estudo de temas correlatos: desde técnicas básicas de relaxamento (Shultz, Jacobson, Reich, além da Calatonia) até variados textos de Psicologia Junguiana, astrologia e temas esotéricos.

Não aceitava pagamento dos grupos de astrologia e estudos esotéricos, mas somente dos grupos que optassem por temas estritamente acadêmicos. Explicava que não poderia cobrar por ensinamentos que recebera gratuitamente. Era extremamente exigente quanto à pontualidade, assiduidade, bem como quanto à dedicação de seus alunos para participarem em tais grupos.

Nos anos 70, passou a ensinar as técnicas de trabalho corporal no meio acadêmico, no curso “Integração Fisiopsíquica” da Faculdade de Psicologia, na PUC-SP. No início dos anos 80, Sándor iniciou o Curso de Especialização no Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo, que conduziu até 1992, ano de seu falecimento.

No final dos anos 80, iniciou também a realização dos “Encontros de Final de Ano”, realizados no próprio Sedes Sapientiae, em que seus alunos relatavam os resultados de suas próprias práticas e pesquisas.

Casado desde 1985 com Maria Luiza Simões, também psicóloga e colaboradora, Sándor dividia seu tempo entre os cursos no Sedes, os grupos de estudo e seus pacientes em consultório. Seu ‘descanso sagrado’ eram os finais de semana passados no sítio de Pocinhos do Rio Verde (próximo à Poços de Caldas) onde se “recarregava” através do contato com a natureza.

E foi nesse sítio no dia 28 de janeiro de 1992, onde passava as férias de verão, que veio a falecer em seu sono.

Para o grande grupo de alunos o primeiro sentimento foi de incredulidade. Logo após, o sentimento de uma grande perda. Mas em seguida, prevaleceu a mensagem essencial do exemplo de vida de Sándor. Houve uma intensa mobilização do grupo no sentido de dar continuidade ao trabalho por ele iniciado.

Os grupos de estudos continuam através de vários profissionais e o curso de Especialização, bem como os Encontros de Cinesiologia (todo final de ano), ainda acontecem no Instituto Sedes Sapientiae.

* Referimo-nos ao livro “Técnicas de Relaxamento”, em que Sándor apresentou a Calatonia. A indicação completa desta publicação encontra-se na nossa bibliografia.

** Agradecemos à Agnes Geöcze (filha ‘de coração’ de Sándor) por pacientemente nos auxiliar na ordenação e complementação das informações aqui contidas.

Texto redigido por Rosa Farah

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